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Ahmad Schabib Hany

‘LOGO ALI’

Dom, 12 Maio de 2024 | Fonte: Ahmad Schabib Hany


‘LOGO ALI’

Jovem Escritora (além de fonoaudióloga e Professora), a corumbaense Anna Lucia Almeida Dichoff homenageia em livro memorável o querido Ale Seher, com a participação das vozes e tradução de Salim Haqzan e Omar Faris.

Genial, sensível, talentoso, eloquente, solidário, generoso e, sobretudo, envolvente na criação e narrativa. Um surpreendente e inimaginável livro-homenagem ao querido Amigo Ale Seher, o imigrante sírio que se tornou corumbaense, flamenguista. É assim com que Anna Lucia Almeida Dichoff nos acolhe em seu universo leve, cheio de empatia, a nos convidar a um mundo de amor, esperança e graça.    

Percebe-se sua alma leve e livre a planar sobre tamanhas adversidades, além da distância que separa a Síria, terra de Ale e de sua Família, do Brasil, este país-continente que soube acolher e proporcionar um porvir generoso a ele e a todos os seus. Captou com ludicidade e maestria o espírito peregrino desse imigrante que desde a juventude escolheu o Brasil — e dentro do Brasil nossa Corumbá cosmopolita — para sobreviver, viver e semear sonhos regados a suor e lágrimas, como nas fábulas árabes que líamos em nossa infância.    

Deu a impressão de que estivéssemos a interagir com alguma obra do generoso e genial Gibran Khalil Gibran ou com o brasileiro mais árabe e sensível, Malba Tahan (o imortal de ‘O homem que calculava’ e muitas obras mágicas que encantaram a nossa juventude), que como Professor, embora apaixonado pelo universo árabe, jamais pôde ter viajado para lá, até porque seus derradeiros anos foram em plenos anos de chumbo. Que a generosa e dadivosa Anna Lúcia possa, sim, conhecer ‘in loco’ [êta expressãozinha embolorada!] não apenas a Síria de Ale Seher, como o Líbano de Gibran Khalil Gibran, a Palestina de Ghassan Kanafani, o Egito de Ahmad Shawki, enfim, a Arábia mágica e diversa e encantadora.    

Não dá para fazer destaques, extrair parte do livro sem incorrer no indelicado terreno da expropriação: o livro (como o homenageado) é todo mágico, cuja integralidade não pode ser vilipendiada por aventuras destituídas de sensibilidade, empatia. Melhor interagir com a autora, sem intermediação, sem intervenção. Como em uma relação de Amizade, não há como recorrer a frações, fricções, sem perder a pureza, o encanto, desse depoimento revelador e cativante. Depois de duas ou três audições, não há como não se levantar e vibrar: bravo, bravo, bravo!    

 

‘Logo Ali’ é livro ilustrado por Ju Candia tecnologicamente impactante: nas vozes de Salim Haqzan e Omar Faris, que colaboraram também na tradução do depoimento-composição de Ale Seher, imigrante sírio por anos proprietário da ‘Casa Tartous’, à rua Delamare, ao lado da não menos emblemática ‘Casa Estrela’ [depois ‘Imobiliária Perfil’] do saudoso e querido Amigo Soubhi Issa Ahmad, que entrou para a história por causa de uma brincadeira de mau gosto de outro imigrante, o ‘Turco Loiro’, mas que a Vida o protegeu por ter sido o lar do cordial e memorável Vereador Edu Rocha, poucos meses antes de sua execução a queima-roupa, a primeira casa a ser visitada pelo jovem mascate e seu atrevido diálogo inocentemente escrito em árabe.    

O talento da autora já me havia sido comentado pelo querido e saudoso Augusto César Proença em um de nossos encontros derradeiros, quando se declarou seu fã desde sempre. Anos depois, o querido Amigo Armando Arruda Lacerda (que tive a honra de conhecer e desde logo privar de sua Amizade na mesma oportunidade, em que a Sociedade dos Amigos da Cultura preparava a Primeira Semana da Cultura, em setembro de 1991, portanto, há mais de três décadas), no primeiro grito de socorro pelo ILA — ‘Abra seu coração para a cultura: adote o ILA’ —, que de novo precisa de um impulso solidário para evitar que se torne mausoléu das inúmeras peças e volumes de seu riquíssimo acervo, se é que ainda existe.  

Foi assim como conheci essa conterrânea, também colega de ofício (Professora, ela com letra maiúscula!), embora não tenha tido a honra de vê-la pessoalmente. Mais um presente que devo ao querido Armando Lacerda e ao saudoso Augusto César, sem os quais a Primeira Semana da Cultura, de 1991, teria sido bem menos impactante, a despeito da participação de Amigas generosas como Nicole Kubrusly, Sidnéia Tobias, Mara Leslie do Amaral, Maria Helena de Andrade, Marlene Peninha Mourão, Heloísa Helena da Costa Urt, bem como de igualmente generosos Amigos como Rubén Darío Román Áñez, Augusto Alexandrino dos Santos Malah, Jorapimo, Lincoln Gomes, Carlos Augusto Canavarros, Luiz Carlos Rocha, Arturo Castedo Ardaya, Valmir Batista Corrêa, Lamartine Figueiredo Costa, Lécio Gomes de Souza, Salomão Baruki, Fadah Scaff Gattass, Farid Yunes Solominy, Joel de Souza, Jonas Luna de Lima, Arnaldo Gomes da Costa, Márcio Nunes Pereira, Armando Amorim Anache, José Carlos Cataldi, Cecílio de Jesus Gaeta, Adelson Martins Navarro, Airton Pereira, Armando Anache, Pedro Paulo de Barros Lima, Walmir Coelho, Mário Sérgio de Abreu, Jota Carneiro, Ziad Ibrahim e Antar Mohamed.     

Foi um avant première de espaços públicos memoráveis e longevos, como o Pacto pela Cidadania (Movimento Viva Corumbá), a Ação da Cidadania contra a Fome e pela Vida e o Fórum Permanente de Entidades Não Governamentais de Corumbá e Ladário (atual Observatório da Cidadania Dom José Alves da Costa), como bem percebeu Lacerda, que logo me apresentou à Comissão Organizadora da Segunda Semana Social Brasileira local. Aliás, ele, Lacerda, e Ernesto Cuellar tiveram papel digno de reconhecimento histórico, ao lado de Dona Fabiana Costa, Professora Mariléia Ribeiro, Suzete dos Santos, Angélica Anache, Luz Marina Cavalcanti da Silva, Edenir de Paulo, Cristiane Sant’Anna de Oliveira, Noemi Feitosa, Fátima Garcia e todo o pessoal da agência local do Banco do Brasil, José Eduardo Katurchi, Seu Jorge José Katurchi, Seu Cláudio Dichoff, Seu Mohamad Abdallah, Najeh Mustafa, Alexandre Gonçalves dos Santos, Padre Antônio Müller, Padre Ernesto Saksida, Dom José Alves da Costa, Padre Pasquale Forin, Padre Emilio Mena, Pastor Marcelo Moura, Pastor Fernando Sabra Caminada, Pastor Antônio Ribeiro de Souza, Pastor Cosmo Gomes de Souza, Irmã Antônia Brioschi e Irmã Zenaide Britto.    

Como discordar do Amigo Ale Seher — e, por tabela, de Anna Lúcia Almeida Dichoff e, é claro!, do querido e saudoso Amigo e Companheiro Jorge José Katurchi, o argentino mais corumbaense da História, que também merece um livro com suas geniais observações —, Corumbá, sem dúvida, é o Paraíso na Terra! Além do cosmopolitismo que fecunda de modo efetivo nosso cotidiano, a fecundidade de talentosos e generosos escritores, poetas, músicos, dramaturgos e artistas plásticos, entre outros, nos incentiva a renovar nossa esperança por novo porvir, em que crianças e adolescentes desconheçam a fome, miséria, discriminação, exclusão, intolerância e recalque. É com a ludicidade e a literatura (graças à tecnologia, como arte em suas diversas formas de expressão) que construiremos um novo Renascimento — ou Renascença, aliás, nome de uma ‘lojínia’ popular de Seu Amouri, gentil imigrante libanês Amigo de meu Avô materno que para os clientes, Seu Amorim ou Don Amurín, no coração da Feira Boliviana, onde meu saudoso Pai também se estabeleceu em meados da década de 1960.     

Como o/a generoso/a leitor/a preferir, Renascimento ou Renascença. É do que estamos precisando. A cultura é o fomento da cidadania. A cultura é porta-voz do Amor, esse que foi destacado pelo homenageado da, permita-me, querida Anna Lucia. E é com autoras e autores com esse grau de generosidade e iluminura que conquistaremos essa sociedade pela qual nossos ancestrais, em todos os quadrantes do Planeta, lutaram, mas sem armas: com livros, letras, sensibilidade, empatia, solidariedade, humanismo.    

Obrigado, Anna Lúcia, por nos dar esperança! Como bem disse o saudoso Poeta Manoel de Barros, certa vez, em certa obra: “A minhoca areja a terra; o poeta a linguagem.” Vamos, pois, arejar nossos horizontes, com as letras, as artes, a cultura e, sobretudo, o amor, essas quatro letras que desde nossas mais tenras idades nos nutrem de civilidade, valores humanistas e, obviamente, sentimentos nobres. Com Ale Seher, na companhia das vozes de Salim Haqzan e Omar Faris, Anna Lucia Almeida Dichoff mais uma vez [pois, pelo que pude ler há pouco, ela também é autora de “Uma bailarina no Pantanal”, “Renê, o aprendiz pantaneiro”, “Olhinhos brilhando”, “Ele, o guardião da natureza”, “Minha Avó de 100 anos” e “Meu Avô de uma perna só”, todos publicados pela Letraria E-ditora] faz jus ao seu segundo nome, Lucia (sem acento), a nos iluminar a alma e o horizonte, e assim nos resgatar a esperança e, sobretudo, a infância, esse grande presente que nos clama por tempos generosos, hoje e sempre.

 

 

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