Ahmad Schabib Hany
PROFESSOR JOSÉ CARLOS ABRÃO, PRESENTE!
Dom, 16 Abril de 2023 | Fonte: Ahmad Schabib Hany
Nesta Sexta-feira Santa, o Professor José Carlos Abrão se eternizou em São Paulo. Pedagogo, Mestre e Doutor pela USP, foi um dos docentes pesquisadores pioneiros do antigo Centro Pedagógico de Corumbá da Universidade Estadual de Mato Grosso, entre 1972 e 1979, quando, depois de criada a UFMS, pediu remoção para o campus de Dourados (base da atual UFGD).
Tomei conhecimento por meio da Professora Kati Caetano, querida docente do saudoso Centro Pedagógico de Corumbá (tempo da Universidade Estadual de Mato Grosso, UEMT), da eternização, na Sexta-feira Santa, em São Paulo, do agora saudoso Professor José Carlos Abrão.
Dos primeiros docentes do então recém implantado curso de Pedagogia em Corumbá, o Professor José Abrão formou-se em Pedagogia pela Faculdade de Educação da USP, mesma instituição em que fez Mestrado e Doutorado. Ao lado de sua Companheira de Vida, a Professora Vera Abrão, dedicou-se à estruturação do então CPC e da UEMT, tendo sido um dos mais brilhantes docentes pesquisadores, incumbido, ao lado do Professor Gilberto Luiz Alves e do Professor Valmir Batista Corrêa, da adequação das grades curriculares das licenciaturas à época oferecida pelo campus de Corumbá.
Foi protagonista de iniciativas pioneiras do então CPC, como a da criação da revista acadêmica Dimensão (uma das mais emblemáticas experiências editoriais da UEMT) e a idealização e realização dos SEPEs (os Seminários de Ensino, Pesquisa e Extensão da UEMT, depois UFMS). Também esteve à frente dos primeiros projetos de pesquisa na área da Educação, os quais foram registrados nos congressos nacionais (e, mais tarde, regionais) da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), entre eles o que tratou sobre a habilitação de educadores para a direção de escolas do primeiro grau, de 1974.
Entre 1972 e 1979, período em que esteve no CPC, os cursos de licenciatura do campus corumbaense foram destino de grande número de universitários latino-americanos (sobretudo bolivianos), em especial no curso de Pedagogia. Então, acadêmicos como os também saudosos Professor Caro, memorável diretor do mais antigo Colégio da Província à época denominada de Chiquitanía (hoje Germán Busch), e Professor Jorge Ocampo Claros, renomado educador em Cochabamba e La Paz, tiveram uma formação sólida que os habilitou profissionalmente em seu país. Além disso, um considerável número de corumbaenses e ladarenses que estudaram nesse mesmo período, hoje a maioria aposentada, fez do magistério um ofício emblemático, tornando-se referência para as novas gerações.
Nos primeiros trinta anos do inicialmente Instituto Superior de Pedagogia (cuja sede era no então Grupo Escolar Luiz de Albuquerque, o atual ILA), depois Centro Pedagógico de Corumbá (CPC), mais tarde Centro Universitário de Corumbá (CEUC) e atualmente Campus do Pantanal (CPAN), o papel de vanguarda do campus de Corumbá fazia com que os docentes, a despeito da falta de infraestrutura e de recursos financeiros, realizassem pesquisas pioneiras. Lá estavam, ao lado do Professor José Abrão, os Professores Masao Uetanabaro, Valmir Batista Corrêa, Gilberto Luiz Alves, Lúcia Salsa Corrêa, Edy Assis de Barros, Kati Eliana Caetano, Vera Abrão, José Carlos Françolin, Gisela Angelina Levatti Alexandre, Wilson Ferreira de Mello, Jorge Vancho Panovich, Luiz Carlos Mesquita, Iliane Esnarriaga Sampaio, Edson Machado Nemir, Carlos Alberto Patusco, Salomão Baruki, Lécio Gomes de Souza, José Luiz Finocchio, Octaviano Gonçalves da Silveira Junior, Leonides Justiniano e Wilson Baruki, entre outro(a)s não menos importantes.
Lembro-me com carinho do Professor José Abrão, circulando pelos corredores do então Centro Pedagógico de Corumbá. É que desde 1973 frequentávamos a biblioteca do CPC, ainda secundarista, época em que a querida Amiga Aydê Victório era responsável pelo acervo bibliotecário, por sinal, frequentado por estudantes de todos os educandários de toda a região. Mais de dez anos depois, quando tive a honra de cobrir para o Jornal da Manhã (compartilhando com um querido Amigo o material de cobertura no diário de maior circulação do estado, para que o projeto de curso de Jornalismo entrasse na pauta da UFMS) o VI SEPE, realizado em Corumbá (em meados da década de 1980), pude conhecer melhor, entre outro(a)s, os Professores Wilson Uieda, Arnaldo Yoso Sakamoto, Lupércio Antônio Pereira, Silvina Rosa Pereira, Maria Angélica de Oliveira Bezerra, Iria Hiromi Ishi, Ivã Moreno, João Bortolanza, Renato Nogueira, Eduardo Saboya Filho, Vilma Trindade Saboya, Tito Carlos Machado de Oliveira, Geraldo Damasceno e Ieda Bortolotto.
O Professor José Abrão, ao optar pelo campus de Dourados, contribuiu de modo especial para as bases da futura Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), que virou uma referência entre as universidades públicas de Mato Grosso do Sul. Ao se aposentar, em 1991, decidiu retornar ao seu estado natal, onde trabalhou em instituições públicas e privadas, além de ter atuado como avaliador de cursos de pós-graduação do INEP Anísio Teixeira. Coerente com sua trajetória profissional, em 2005 uma reportagem revelava que o título de doutor perdeu força nas universidades privadas, em que constatava que ele e seus colegas foram demitidos porque custavam mais caro à instituição.
A despeito da discriminação com docentes mais velhos (e mais experientes), continuou a atuar como pesquisador e a compartilhar suas experiências para todos os cantos do país, como quando apresentou na 62ª Reunião Anual da SBPC, realizada em julho de 2010 em Natal, uma comunicação cuja brilhante conclusão, com a qual encerro esta homenagem.
“De acordo com Castells é possível passar da situação de legitimação para a conquista de uma identidade de projeto. Esta visão propositiva se enquadra, segundo entendemos, na situação do Avicies. É preciso que se criem algumas condições que possam levar à identidade de projeto. A principal delas, no momento, é iniciar um movimento junto ao Congresso Nacional para reformular a lei 10.861/04 que criou a CONAES (Comissão Nacional de Avaliação da Educação Superior) com 13 elementos e permitir que os Avicies tenham assentos garantidos na CONAES, onde eles, em número bastante representativo, tenham voz e voto para discutir e aprovar diretrizes válidas para o processo de avaliação. Este talvez seja um passo importante a caminho de projeto. Outro ponto que tem interferido nas observações dos avaliadores é o fato de eles terem que levar em conta um modelo único de avaliação (‘referencial mínimo’ para mais ou para menos) sem respeitar as diferenças locais de instituição, de cursos e de currículos, Os referenciais conflitam com a lei. Daí a necessidade de o Avicies fazer parte de um movimento social e político envolvente na busca de uma avaliação sistêmica e emancipatória. Para tanto vale até a utopia: transformar o ciberespaço do BASis no Avatar das forças possíveis!”
Até sempre, Professor José Carlos Abrão! Obrigado por sua incansável luta! Sua memória e seu legado permanecerão no âmago dos milhares de educadores deste país-continente que tiveram a oportunidade de conhecer seus estudos, ainda que estejamos distantes da valorização e do reconhecimento da Educação como estratégia de transformação de uma sociedade excludente, exploradora e preconceituosa.
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