Geral
31 trabalhadores paraguaios traficados, entre eles 4 adolescentes, são resgatados em Mato Grosso do Sul
Trabalho análogo à escravidão e tráfico de indígenas paraguaios expõem realidade de exploração em propriedades rurais do estado.
Qua, 27 Novembro de 2024 | Fonte: Assessoria MPT-MS

Operação realizada entre os dias 18 e 22 de novembro, com apoio e participação do Ministério Público do Trabalho em Mato Grosso do Sul (MPT-MS), resultou no resgate de 31 trabalhadores indígenas paraguaios, incluindo quatro adolescentes, submetidos a condições análogas à escravidão em duas propriedades rurais do estado, uma em Nova Andradina e outra em Ribas do Rio Pardo. As vítimas foram descobertas após seus veículos clandestinos serem interceptados pela Polícia Rodoviária Federal (PRF). O caso revelou um esquema de tráfico humano que envolve indígenas paraguaios, trazidos sem qualquer formalização imigratória para trabalhar na colheita da mandioca.
Tráfico de trabalhadores e condições degradantes
Em área rural de Nova Andradina, na Fazenda São Cristóvão, pertencente ao Grupo Coimma, foram resgatados 19 trabalhadores, sendo um adolescente. A abordagem ocorreu enquanto retornavam ao Paraguai em veículos contratados pelos próprios aliciadores, popularmente conhecidos por “gatos”, interceptados pela Polícia Rodoviária Federal no trajeto entre Nova Andradina e Nova Alvorada do Sul.
Após o resgate, as vítimas foram encaminhadas à Delegacia de Polícia Civil de Nova Alvorada do Sul, onde prestaram depoimentos à Auditoria-Fiscal do Trabalho e ao procurador do Trabalho responsável pelo caso, Paulo Douglas Almeida de Moraes, titular regional da Coordenadoria Nacional de Combate ao Trabalho Escravo (Conaete) do MPT.
Segundo consta na ata da audiência, realizada no dia 21 de novembro na Promotoria de Justiça de Nova Alvorada do Sul, os trabalhadores resgatados viviam em condições precárias e completamente desprovidas de direitos básicos. Contratados para a atividade de "arrancação" de mandioca, eles não possuíam registro em Carteira de Trabalho e Previdência Social, tampouco haviam passado por qualquer processo formal de imigração. As diárias foram acertadas em R$ 130, mas não foram fornecidos Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) ou condições mínimas de segurança para a execução do trabalho.

No local, havia banheiros precários e sem áreas de vivência. A alimentação precisava ser comprada pelos próprios trabalhadores. Além disso, nenhum exame admissional ou medida de saúde ocupacional foi realizado. Durante a audiência administrativa, os dois aliciadores alegaram desconhecer a presença de um adolescente no grupo, mas as condições a que submeteram os trabalhadores configuraram graves violações à dignidade e aos direitos fundamentais.
A tentativa de conciliação extrajudicial com os representantes da Fazenda São Cristóvão não foi bem-sucedida. Não houve acordo para compensação dos danos civis-trabalhistas e morais das vítimas. Como resultado, o caso será judicializado, com o MPT-MS pleiteando R$ 3.705.000,00 em danos morais individuais, R$ 37.705.000,00 em danos morais coletivos e R$ 114.640,87 em verbas rescisórias.
Já em Ribas do Rio Pardo, na propriedade que firmou acordo com MPT-MS, foram encontrados 12 trabalhadores, incluindo três adolescentes. No local, os trabalhadores resgatados enfrentavam condições de trabalho degradantes. Cada trabalhador recebia apenas R$ 25 por "bag" de mandioca colhida, sem que lhes fossem fornecidos Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), apenas as ferramentas para o serviço. No local de trabalho, também não havia banheiros próximos à lavoura ou áreas de vivência adequadas para as refeições. A alimentação era fornecida pelo próprio contratante, mas os custos do transporte até o local, realizado por um “táxi” contratado, foram integralmente cobrados dos trabalhadores, somando cerca de R$ 2.000,00. Essa combinação de exploração financeira e condições degradantes evidencia a gravidade das violações dos direitos humanos.

Ações interinstitucionais e combate à exploração
A operação envolveu o MPT-MS, Ministério do Trabalho e Emprego, Polícia Rodoviária Federal, Polícia Federal, Polícia Militar Ambiental e agentes da Polícia Institucional, integrantes da Gerência de Segurança Institucional (GSI) do MPT. A situação expõe a gravidade do tráfico humano e da exploração de trabalhadores vulneráveis. Para o procurador Paulo Douglas Almeida de Moraes, os casos revelam não apenas a exploração de pessoas em condições degradantes, mas também a utilização de indígenas paraguaios, grupo historicamente à margem dos direitos trabalhistas, como alvo principal do tráfico de mão de obra.
“As operações revelaram um esquema que vai além do trabalho escravo, já que envolve o tráfico de indígenas paraguaios para trabalhos clandestinos no Brasil. Isso escancara a fragilidade de nossas fronteiras e a exploração sistemática dessas populações vulneráveis. O resgate desses trabalhadores e a responsabilização das empresas são passos fundamentais para proteger os direitos humanos e combater práticas que desrespeitam a dignidade. Estes casos também reforçam a necessidade de ampliar os esforços de fiscalização e conscientização em parceria com as instituições de segurança pública e justiça”, evidenciou Moraes.
Os trabalhadores resgatados agora aguardam os desdobramentos das ações judiciais. Os casos, que já resultaram em significativas reparações financeiras, ressaltam a necessidade urgente de ações interinstitucionais para proteger os direitos humanos e garantir condições dignas de trabalho.
Tudo Sobre
mpt-ms ribas-do-rio-pardo nova-andradina trabalho-analogo-a-escravidao trabalhadores-indigenas-paraguaiosVeja Também
Durante julho e agosto de 2024, a Operação Resgate IV retirou 593 trabalhadores de condições de trabalho escravo contemporâneo. O número é 11,65% maior do qu...
A Polícia Federal deflagrou nesta terça-feira, 24 de setembro, a Operação Libertad, com o objetivo de desarticular um grupo criminoso especializado no contra...
Últimas Notícias
- 19 de Outubro de 2026 Pantanal goleia Taveirópolis e conquista o bicampeonato no Estadual Feminino
- 19 de Outubro de 2026 Economia cresce 0,5% em agosto após dois meses de recuo, estima FGV
- 19 de Outubro de 2026 O DEBATE QUE EXPÔS O CARÁTER DO 'ZERO HUMMM'
- 19 de Outubro de 2026 MPF consegue retomada de ação sobre demissões na saúde indígena de Mato Grosso do Sul durante a pandemia
- 19 de Outubro de 2026 Homem agride esposa após ela se negar a dar dinheiro para bebida em Corumbá
- 19 de Outubro de 2026 Corumbá recebe Workshop Turismo de Pesca Esportiva em Mato Grosso do Sul em novembro
- 19 de Outubro de 2026 Pagamentos de outubro do Bolsa Família começam nesta segunda
- 18 de Outubro de 2026 Samba perde Benito di Paula, compositor de “Retalhos de Cetim”, aos 84 anos
- 18 de Outubro de 2026 Escolas têm até o dia 31 de outubro para selecionar livros da Educação Infantil para o triênio 2026-2029
- 18 de Outubro de 2026 Pantanal, Operário, Colorado e Náutico avançam para semifinal do Estadual Sub-17
- 18 de Outubro de 2026 BNDES já aprovou R$ 244,1 milhões do Brasil Soberano para apoiar setor produtivo de Mato Grosso do Sul
- 18 de Outubro de 2026 Bacia do rio Paraguai apresenta níveis dentro da normalidade na maior parte dos pontos monitorados
- 18 de Outubro de 2026 Funtrab oferece mais de 2,2 mil vagas de emprego em Mato Grosso do Sul
- 18 de Outubro de 2026 Flotilha de Mato Grosso comemora 150 anos na terça-feira
- 18 de Outubro de 2026 PASSEATA DA JUVENTUDE EM APOIO A LULA SUPERA EXPECTATIVA