Ladário
“Desistir não era opção”: conheça a primeira mulher a conquistar o brevê de operações no Pantanal
Do balcão de lanchonete à elite do Pantanal; Soldado Júlia Maria superou 47 dias de sobrevivência na selva e entrou para a história dos Fuzileiros Navais.
Dom, 21 Dezembro de 2025 | Fonte: Agência Marinha de Notícias

Para a Soldado (Fuzileiro Naval) Júlia Maria, a conquista do “Jacarezinho” — como é conhecido o Curso Expedito de Operações no Pantanal — não foi apenas uma vitória militar, mas a prova final de uma vida pautada pela persistência. Durante 47 dias, ela enfrentou calor extremo, chuvas torrenciais, a ameaça de animais peçonhentos e o desgaste físico brutal da maior planície alagável do planeta. O resultado é histórico: ela se tornou a primeira mulher a concluir o curso em seus 36 anos de existência.
O desafio físico foi imenso. Em uma das etapas mais duras, a marcha de 12 km, Júlia sentiu o peso da jornada. “Foi um dia muito quente e abafado. Como sou mais baixa, precisei me esforçar o dobro para acompanhar o ritmo dos outros militares, carregando mochila e fuzil”, relembra.

Mas a força mental falou mais alto. “Se os instrutores não me desligassem por insuficiência técnica ou saúde, eu não sairia. Para mim, desistir não era uma opção. O objetivo era voltar para casa com o brevê”, afirma.
Um sonho que venceu o tempo
A resiliência de Júlia foi forjada muito antes do Pantanal. Natural do Rio de Janeiro e criada na Ilha do Governador, ela cresceu em uma “casa cheia”, ao lado de três irmãos e tios. A base de sua formação veio dos avós: ela, professora da rede pública; ele, sargento do Exército. Foi nesse ambiente de cuidado coletivo que nasceu o desejo de seguir a carreira militar.
Desde criança, assistia aos filmes americanos, via os Fuzileiros Navais e pensava que um dia gostaria de ser como eles”, conta. A disciplina também veio do esporte: na escola, Júlia praticava taekwondo com um mestre que era bombeiro militar, figura que reforçou sua vocação. “As figuras que eu tinha como exemplo eram, em sua maioria, militares. Eu me via nelas”, relembra.
A vida adulta trouxe outros desafios. Enquanto trabalhava em uma rede de fast food, conciliando o emprego com os estudos, o sonho da farda parecia distante. Quando a oportunidade surgiu, o tempo era curto: ela estava no último ano de idade limite para prestar o concurso. “Eu sabia que aquela era a minha única chance”, diz. Aprovada, ingressou na Marinha em agosto de 2024, na segunda turma feminina de Soldados. Atualmente, a militar serve no 2º Batalhão de Infantaria de Fuzileiros Navais (2ºBtlInfFuzNav), conhecido como Batalhão “Humaitá”.
Coragem para mudar
A decisão de encarar o ambiente hostil do Pantanal gerou desconfiança em alguns. “Quando dizia que faria o curso, me chamavam de louca, perguntavam por que eu não tentava algo mais fácil”, relata. Mas ela também encontrou apoio. Um instrutor e veterano do curso, o Terceiro-Sargento (Fuzileiro Naval) Wayonan, a presenteou com um brevê antes da viagem para dar sorte.
Ao chegar a Ladário (MS), Júlia tomou outra decisão simbólica: raspou a cabeça. Não por obrigação, mas por estratégia e segurança nas operações. O cabelo será doado a uma instituição de caridade, num gesto que mistura desprendimento e solidariedade.
Durante o curso, a militar aprendeu a usar o ambiente a seu favor, adaptando-se às exigências do terreno alagado e imprevisível. Dos 49 alunos que iniciaram o treinamento, apenas 23 chegaram ao final — e Júlia estava entre eles.

Agora, ostentando o gorro marrom e o distintivo com a tríade Jacaré-Âncora-Louros, Júlia integra o seleto grupo de 909 combatentes ribeirinhos formados pela Marinha. A maior recompensa, porém, veio pelo telefone. “Liguei para minha avó quando acabou e ela atendeu chorando, dizendo que eu era o grande orgulho da vida dela. Disse que meu avô, se estivesse aqui, estaria muito feliz. Tudo o que passei valeu a pena por isso.”
A nova combatente ribeirinha espera que sua história sirva de combustível para outras mulheres. “Às vezes a gente duvida da nossa força. Mas quando vim para cá, vim decidida. Mesmo que não consigam de primeira, não desistam. Com foco e persistência, a vitória chega.”
Adestramento de elite no Pantanal
Conduzido pelo 3º Batalhão de Operações Ribeirinhas (3ºBtlOpRib), o curso foi realizado de novembro a dezembro em regiões de Mato Grosso e de Mato Grosso do Sul. A maior parte das atividades concentrou-se na Área de Adestramento do Rabicho (AAR), a maior área de adestramento e instrução para atividades de Operações Ribeirinhas da Marinha, com 205 km² estendidos ao longo de 44 km da margem direita do Rio Paraguai. No local, os alunos passaram por instruções de natação utilitária, sobrevivência, orientação e navegação (fluvial e terrestre), além de operações com embarcações, aeronaves e tiro de combate.
Para o Comandante do 3ºBtlOpRib, Capitão de Fragata (Fuzileiro Naval) Danilo Lopes da Silva, a complexidade da formação reside na imprevisibilidade do Pantanal. “Um dia está muito quente, no outro chove, depois vem a friagem. É uma área alagada, que exige do aluno grande capacidade de adaptação”, explica. O Oficial ressalta que o curso alia teoria e prática de forma imediata, com avaliações constantes e rigorosas, típicas de atividades de risco onde não há margem para erros.
Ao final, os concluintes passam a ostentar o gorro marrom, que simboliza as águas do Rio Paraguai, e o distintivo com a tríade Jacaré-Âncora-Louros. Os itens representam a força do combatente pantaneiro, o compromisso com a Marinha e a superação das adversidades enfrentadas durante o curso.
Outros marcos inéditos
Além do pioneirismo feminino, a edição deste ano do Curso Expedito de Operações no Pantanal (C-Exp-OPant) entrou para a história da Marinha por outros dois feitos singulares. Pela primeira vez, um Oficial da Armada concluiu o rigoroso treinamento: o Primeiro-Tenente Elias de Lima Machado, que serve no Navio Monitor “Parnaíba”.
Outro destaque foi o desempenho do “Aluno 01” do curso, o Capitão de Fragata (Fuzileiro Naval) Francisco Leonardo Carvalho Amambahy Santos. Oficial Superior designado para assumir o Comando do 3º Batalhão de Operações Ribeirinhas em 2026, ele decidiu vivenciar a rotina operacional antes de liderar a tropa.

Para o futuro Comandante, que não conhecia o Pantanal, a experiência teve um propósito estratégico: criar vínculos e entender a realidade do terreno. “Ao longo da formação, foi possível compreender de forma mais próxima as peculiaridades da atuação no bioma, as dificuldades operacionais, as grandes distâncias e os desafios logísticos enfrentados. Vivenciar a rotina como aluno também permitiu perceber o elevado grau de esforço e desgaste da equipe envolvida na condução do curso, experiência que contribuirá para uma visão mais ampla e fundamentada no exercício do comando a partir de 2026.”
Assista ao vídeo:
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