Política
A esquerda de Evo Morales enfrenta seu maior abismo em 20 anos
Divisões internas, crise econômica e desgaste político ameaçam o futuro do MAS às vésperas das eleições na Bolívia.
Sáb, 16 Agosto de 2025 | Fonte: Brasil 247

Vinte anos depois do triunfo histórico de Evo Morales, a esquerda boliviana vive seu momento mais delicado. O El País publicou uma ampla reportagem neste sábado (16) mostrando como o Movimento Ao Socialismo (MAS), que chegou ao poder em 2006 como uma força popular e indígena contra as elites tradicionais, agora se vê fragmentado e enfraquecido.
O partido, que unificou sindicatos, indígenas e intelectuais de esquerda, tornou-se hegemônico na política boliviana durante quase duas décadas. Mas o centralismo de Evo Morales, primeiro presidente indígena do país, impediu a renovação de lideranças e hoje o MAS chega dividido e enfraquecido às urnas.
A divisão entre evistas e arcistas
A ruptura começou quando Morales, após deixar o poder, passou a questionar decisões de seu sucessor, o atual presidente Luis Arce. A disputa se agravou quando a Justiça reabriu processos contra o ex-presidente e o Tribunal Constitucional vetou sua candidatura. A partir daí, o MAS se dividiu em correntes rivais:
- Arcistas, liderados por Eduardo del Castillo, ex-ministro do Interior;
- Rodriguistas, apoiadores da candidatura de Andrónica Rodríguez, presidente do Senado e ex-pupilo de Evo;
- Evistas, que defendem a liderança de Morales, mesmo com sua inelegibilidade, e pregam o voto nulo para deslegitimar a eleição.
“Esta divisão penetra na estrutura do partido, que é uma aglomeração de movimentos sociais. Então, agora você tem até três facções paralelas de uma mesma confederação de camponeses ou da federação de mulheres bartolinas”, explicou a politóloga María Teresa Zegada.
As críticas e ressentimentos
Morales reagiu com dureza ao ver Rodríguez lançar-se candidato. “Unidad no es tapar traiciones”, escreveu em sua conta no X, chamando o ex-aliado de “traidor”. Rodríguez, por sua vez, tenta se distanciar da imagem negativa do atual governo, acusado de má gestão econômica diante da escassez de dólares e da inflação, que chegou a 19% em maio.
O jornalista Iván Canelas, ex-viceministro e ex-governador pelo MAS, destacou a importância simbólica de Morales:
“A história de Evo é fascinante porque é quase impossível pensar que um menino que nasceu na mais absoluta pobreza, pastor de lhamas, pudesse se tornar o primeiro presidente indígena da Bolívia”.
Já a cientista política Zegada lembra que, apesar da perda de influência, Morales ainda representa a luta contra séculos de exclusão:
“Há um racismo latente que não foi superado, e Morales se apropriou desse processo. Não surgiu um perfil que dê tranquilidade ao seu povo de que não serão excluídos de novo”.
O peso do desgaste
O estopim da crise de legitimidade do ex-presidente ocorreu em 2019, quando insistiu em disputar uma terceira reeleição apoiado em manobras jurídicas. O pleito terminou com acusações de fraude e seu derrocamento. Desde então, o apoio urbano e de setores médios evaporou, restando apenas o chamado “círculo duro”, majoritariamente cocalero.
Agora, mesmo sem poder concorrer, Morales promete agir como força de oposição desde sua base no Chapare, apostando no desgaste de um futuro governo liberal para tentar recuperar espaço.
O futuro do MAS e da Bolívia
Com o MAS fragmentado e a economia em crise, os cenários apontam para uma guinada à direita. Pesquisas eleitorais indicam que apenas a candidatura de Rodríguez teria chance de alcançar o segundo turno. Morales, por sua vez, atua para deslegitimar o processo e manter sua influência no movimento social.
O que antes foi o maior bloco popular da América Latina agora enfrenta um dilema histórico: reinventar-se ou se perder em disputas internas e ressentimentos.
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