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Roberto Maciel (Betão)

CANTINHO DO BETÃO: FESTA DE ARROMBA

Ter, 21 Março de 2023 | Fonte: Roberto Maciel (Betão)


       O bar de eventos de Gilson “Cara de Bode” estava em polvorosa pois, logo mais à noite iria haver um grande casório. O pai da noiva doara meia novilha e o pai do noivo entrara com 50 barris de chope.
- Você assustou toda a passarada das vizinhanças com esse palavrão.
- Onde anda meu “pé-de-bode” de 8 baixos, mulher. Logo mais vou tocar num casório e quero deixar, ele bem alinhado.
- Está lá no fundo do baú de trastes.
- Que é que foi, homem de Deus – perguntou a velha china que estava quarando roupa no terreiro.
- Você assustou toda a passarada das vizinhanças com esse palavrão.
- Onde anda meu “pé-de-bode” de 8 baixos, mulher. Logo mais vou tocar num casório e quero deixar, ele bem alinhado.
- Está lá no fundo do baú de trastes.
- Avisa pro peão para atrelar o Pingo na charrete e venha lustrar minhas botas e passar ferro na minha bombacha, na camisa e no lenço, pois não quero chegar lá, todo esgualepado.
     O bar e casa de eventos do Gilson Cara de Bode, se localizava no centro de várias comunidades: italianos, japoneses, chineses, cearenses, mineiros... e, nas festanças, todos lá se reuniam.
      Aberto quase 24 horas por dia, o bar recebia gentilmente os fregueses para um bate-papo, um carteado ou uma partida de sinuca. Servia também vários tipos de tira-gostos e aperitivos, desde refrigerante até chicha e saquê, além de curtidos de várias espécies de plantas medicinais.
- Vocês aí, deixem esse altar no jeito e você da aparelhagem de som, não se esqueça de desligar o microfone do Gaudêncio, senão vai ser aquele desastre.
     Logo foram chegando os músicos: os paraguaios com harpa e violão, os gaúchos com sanfonas, os pagodeiros com cavaquinho, pandeiro e zabumba. Com tudo nos trinques: churrasco assando, mandioca ferventando, sarrabulho fervendo na panela, Gilson foi soltar um barro e tomar aquele banho caprichado para receber os convivas. Veio até a bandinha da Prefeitura do povoado para tocarem músicas carnavalescas. Havia mesas ao ar livre, no chão batido e na parte coberta.
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   Gaudêncio Trovoada subiu na charrete com a caixa de sanfona. O cavalo deu uma olhada para trás e rezou para que o gaúcho não ensaiasse nenhuma música no caminho pois, apesar do tampão nos ouvidos, o som da voz do homem era de lascar.
  No caminho, Gaudêncio começou a recordar-se de seu passado. Seus pais, vindos da Itália, ganharam a vida como “calcamanos”, sempre colocando a mão na balança da quitanda. Enricaram e compraram um pequeno sítio nos arredores, onde tinham alguma criação. Era solteirão pois fora prometido para uma italianinha que ficou surda quando Gaudêncio lhe fez no ouvido, o pedido de casamento. Vazou para a Itália e nunca mais voltou. Gaudêncio era um misto de Tenor e Barítono e mal podia controlar a voz tonitroante, daí a alcunha de “trovoada”. Conta a lenda, que quando ele nasceu, ensurdeceu a parteira com seu berro, quando levou o tapinha na bunda.
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     O Vigário e o Sacristão já estavam em seus postos e, ao lado do altar, o noivo, um mineirinho com cara de babaca, mas era lindo, graças ao dinheiro dos pais. Gaudêncio, atrás do microfone desligado, arrumou a garganta e aos primeiros acordes do teclado, iniciou a “Ave Maria” pois a noiva, potrancona boa de tudo, ia começando a galgar a escada. Foi nesse momento crucial que um cavaleiro catou a noiva, engarupando-a na anca de seu cavalo e, levantando poeira, partiu estrada a fora...
- Eu vim aqui para realizar um casamento e daqui não saio sem concluir a vontade divina - disse o vigário – há neste recinto alguém que queira contrair matrimônio com este pobre vivente?
- Eu quero – disse uma voz feminina dentre a multidão.
    Era Rosinha, mineirinha tímida que andava de rabo-de-olho no noivo há muito tempo. Ante o olhar estupefato dos pais do noivo e dos convidados, alguém catou o véu e o buquê que a noiva havia deixado cair no momento do sequestro e o casamento foi realizado ao som tonitroante da “Ave-Maria” entoado por Gaudêncio Trovoada.
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             A festança de arromba varou a noite com churrascada e chopeidança em vários ritmos. Pó fino levantando do chão batido na ala externa e som de esporas tinindo no assoalho na ala interna. Em pouco tempo devoraram a meia novilha, o sarrabulho e a mandioca e o noivo, feliz da vida, bicocava a consorte amada em uma das mesas, ansiosos para irem ao leito nupcial.

Correio de Corumbá

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