Cultura
Da palavra ao canto: palestra-show de Ney Matogrosso transforma abertura do FestJuv em experiência de arte viva
Ney Matogrosso apresentou uma palestra-show no palco do Teatro Glauce Rocha, em Campo Grande.
Sex, 27 Março de 2026 | Fonte: Assessoria de Imprensa

A noite de abertura da 2ª edição do Festival da Juventude começou de forma pouco convencional, e justamente por isso tão marcante. Antes mesmo da melodia, veio a letra, a palavra. Isso porque, na noite da última quinta-feira (26), Ney Matogrosso apresentou uma palestra-show no palco do Teatro Glauce Rocha, em Campo Grande, revelando um artista em estado de reflexão, partilha e construção: menos o ícone performático já consagrado, mais o artista-pesquisador.
Ao lado do escritor Febraro e da artista visual Isabê, mediadores do encontro, Ney transitou por temas como processo criativo, memória, meio ambiente e, claro, a juventude. Em vez de conselhos prontos, ofereceu experiência e partilhou sua trajetória com a precisão de quem entende o tempo como matéria-prima e aliado.
“Só trabalho com ensaio, ensaio, ensaio. Em geral, para um show ficar pronto, são mais de três meses, com banda diariamente, de quatro a cinco horas por dia de ensaio. É um exercício contínuo”, contou. A fala, longe de romantizar o fazer artístico, revelou o rigor por trás de uma obra que atravessa gerações. “Eu me defino como artista porque quero fazer tudo o que me interessa nas artes, como dançar, dirigir peças e shows, produzir, atuar, cantar".
Ao abordar seu processo criativo, Ney reforçou a ideia de construção coletiva, ainda que ancorada em disciplina individual. “Compartilhar para mim é normal. Mas tudo é feito com muito trabalho, tudo é muito trabalhoso. Embora eu seja um artista profissional, tudo é fruto de muito ensaio e de experimentação.” Em tempos de instantaneidade digital, ele trouxe o olhar para o estudo e para o uso do tempo na construção de um trabalho consistente.
E a conversa avançou para temas que extrapolam o palco. Meio ambiente, memória e percepção de mundo surgiram como extensões naturais de sua arte. “Eu vejo tudo integrado”, afirmou. Ao lembrar das viagens que fazia até sua cidade natal, Bela Vista, revelou uma inquietação profunda. “Quando eu ia para lá de carro, meu pai tinha um fusquinha, e eu via um cerrado alto que ia se transformando em floresta. A última vez que fui a Bela Vista não vi mais esse cerrado e nem a floresta. Isso me deixa muito aflito”.

Sem assumir o papel de mentor, recusou a ideia de aconselhar a juventude, mas deixou uma mensagem clara. “Não dou conselho, não gosto. Mas o que posso dizer é que devemos viver neste planeta da melhor forma possível. Isso inclui o bom convívio com as outras pessoas e o olhar atento a esse organismo vivo [planeta Terra], do qual fazemos parte".
A mesma lucidez apareceu quando falou sobre senso crítico e expressão. “A crítica, acredito que a gente tenha o direito de fazer. Eu critico as coisas das quais discordo, mas nunca com raiva, e sim com base naquilo que observo”, afirmou.
Da palestra para o show
E se a fala capturou a atenção, o canto hipnotizou os presentes. Ao migrar da conversa para o show, Ney conduziu o público por um rico repertório — de “Nada por Mim” a “A Balada de um Louco” — em uma apresentação que oscilou entre delicadeza e intensidade. A plateia cantou, filmou, aplaudiu e, sobretudo, ouviu.
Talvez por isso, “Fala”, canção composta em 1973, tenha ganhado um novo sentido ali dentro do teatro. O trecho “eu não vou falar, então eu escuto” parecia ecoar em cada pessoa que acompanhava cada gesto, silêncio, e inflexão do artista. Foi uma escuta coletiva com os ouvidos, o coração e os olhos.
Vale destacar que o encontro também foi geracional. Jovens universitários dividiram espaço com fãs de décadas. Como Thales Matheus Saldanha, de 22 anos, estudante de Engenharia Física, que chegou com o rosto pintado em referência à fase dos Secos & Molhados. “Sou do metal, do rock, mas admiro muito a MPB. O Ney tem uma construção muito ampla, uma crítica forte. Isso também existe no metal”, explicou.

Ao lado dele, Crezzo Paiva Filho, de 68 anos, fã há quase cinco décadas, também prestou homenagem ao artista, com adereços e maquiagem inspirados em diferentes fases da carreira. “Desde os 19 anos acompanho o Ney. São quase 50 anos vendo esse artista se reinventar. Estar aqui hoje é como revisitar toda essa história, mas ao vivo, com essa energia que ele ainda tem”, disse.
Dois tempos, um mesmo artista. Ao final, o que se viu foi uma transformação sutil: se Ney iniciou a noite mais tímido, especialmente durante a cerimônia formal do título honoris causa, no show, já ao centro do palco, terminou mais próximo de sua essência performática, arriscando passos, provocando o público e sendo ovacionado entre aplausos e leques.
Homenagem: Título honoris causa
A noite também foi marcada por um momento simbólico: a concessão do título de doutor honoris causa pela UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul).
Visivelmente emocionado, Ney reagiu com espontaneidade. “É uma novidade pra mim isso aqui, sei nem o que dizer. Claro que estou feliz, mas acho que preciso de um tempinho para entender o significado disso”, afirmou, sorrindo.
A reitora Camila Ítavo destacou o caráter coletivo do momento. “Ele me disse que é a primeira vez que recebe um honoris causa, e eu também estou vivendo isso pela primeira vez como reitora. Estamos juntos nessa viagem".

Na oportunidade, ela apresentou a dimensão da Universidade, composta por 45 mil estudantes, 1.800 técnicos, 1.600 professores e mais de 500 colaboradores, presentes em 10 cidades de Mato Grosso do Sul. “Receber o Doutor Ney é trazer para dentro da Universidade a força da cultura, da criatividade e da arte. Hoje, ele também representa a nossa casa [UFMS]".
Apoiador do FestJuv, o parlamentar federal Vander Loubet ampliou o olhar sobre o papel da iniciativa. “É uma alegria imensa estar aqui hoje na abertura do Festival da Juventude. Quando a juventude ocupa a cultura, ela ocupa o futuro. Esse festival não é apenas um evento, é um espaço de expressão, de encontro, de diversidade e de construção de identidade para os jovens. Sempre digo que cultura não é gasto, é investimento: investimento em educação, desenvolvimento econômico e social. É por isso que acredito neste projeto e sigo apoiando iniciativas como essa".

Só o começo: programação
Se a quinta-feira (26) foi um início marcante, que além de Ney Matogrosso, teve apresentação da Orquestra Indígena com Mc Anarandá, abertura da Vila da Vila das Letras, ela é apenas o primeiro capítulo. A programação do FestJuv segue nesta sexta-feira (27) e ao longo de sábado (28), com atividades durante todo o dia e o show de Chico Chico no encerramento. Todas as atividades são gratuitas.
Para conferir a programação completa, basta acessar o site oficial do Festival https://festjuv.com.br/2026/ ou as redes sociais (@festivaldajuventudems).
O Festival da Juventude é uma realização do Instituto Curumins, em parceria com a UFMS e o Ministério da Cultura, por meio de emenda parlamentar do deputado federal Vander Loubet, além do apoio da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet), do Fundo Nacional de Cultura e do Governo Federal. Conta ainda com o apoio da Secretaria de Estado da Cidadania, Subsecretaria da Juventude, Secretaria de Estado de Turismo, Esporte e Cultura, Secretaria de Estado da Educação, Fundação de Cultura de MS, Educativa MS, Governo do Estado, da senadora Soraya Thronicke, da deputada federal Camila Jara e da Águas Guariroba.

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