Meio Ambiente
O ‘Legado das Cinzas’: Estudo mostra efeitos dos incêndios no Pantanal brasileiro através de testes toxicológicos das cinzas
Conclusões do estudo mostram que até mesmo para o combate aos incêndios, o uso do fogo deve ser considerado com cautela.
Dom, 19 Janeiro de 2025 | Fonte: Ecoa

Em 2020 o Pantanal brasileiro sofreu incêndios devastadores, os quais levaram a levaram a destruição de mais de 4 milhões de hectares, criando uma ‘conjuntura’ ambiental sem precedentes. Para avaliar efeitos após o fogo no solo, nas águas e no ar, pesquisadores de diferentes instituições coletaram cinzas em 4 Unidades de Conservação (UCs) na parte norte do Pantanal para a realização de testes toxicológicos.
Para a doutora Carolina Joana da Silva, Presidente do Conselho Nacional da Reserva da Biosfera do Pantanal e professora da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat), e uma das autoras do Estudo (Wildfire ashes: evaluating threats on the Pantanal wetland reserve (Mato Grosso, Brazil) using ecotoxicological tests), a iniciativa foi “para comprovar algumas hipóteses e suposições”. Informa ainda que se trata da segunda pesquisa experimental de abordagem toxicológica do impacto dos incêndios em pequenos animais, quase invisíveis a olho nu – “a invisibilidade na mortalidade no Pantanal”.
Carolina registra que até agora as pesquisas mostraram os impactos na escala “paisagem, com comunidades e populações de mamíferos e répteis afetados, com abordagens mais descritivas nessas escalas. A nossa pesquisa mostra os efeitos de ‘produtos’ dos incêndios – as cinzas e as taxas de mortalidade de modo experimental.”
“As cinzas estão causando impactos não visíveis aos nossos olhos. Em 2020 as imagens dos incêndios eram de jacarés e onças sendo queimados. O que aconteceu com o que não vemos? As cinzas quando são levadas para as águas entram no sistema aquático e são incorporadas. O que foi visto no microscópio é uma letalidade de 70%, entre indivíduos menores e microrganismos. Esses são animais aquáticos que representam a base da cadeia alimentar no Pantanal. E pior, nem sabemos ainda se essa fauna aquática se recompôs, ou se houve redução. Usar fogo nesse ambiente sem saber ao certo qual é o impacto é um risco gigantesco”.
Carolina Joana afirma que as conclusões do estudo mostram que até mesmo para o combate aos incêndios, o uso do fogo deve ser considerado com cautela.
O estudo e os meios
No estudo, os pesquisadores informam que no sistema edáfico (fatores que influenciam diretamente os solos) o trabalho foi realizado através de testes comportamentais e de toxicidade aguda usando anelídeos (vermes, minhocas, sanguessugas e outras espécies) expostos ao solo contaminado com diferentes concentrações de cinzas. Na água, avaliaram o impacto por meio de testes com Daphnia similis Claus, 1876 (pulga d’água). No sistema de solos, por meio da Eisenia andrei Bouché (uma espécie de minhoca comum). Também foi avaliado o efeito das cinzas no fluxo de gases de efeito estufa do solo.
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