Ahmad Schabib Hany
50 ANOS DO SANGRENTO GOLPE CONTRA ALLENDE
Dom, 03 Setembro de 2023 | Fonte: Ahmad Schabib Hany
Pela Rádio Bandeirantes, a voz embargada do Jornalista Newton Carlos, perplexo, narrava ao vivo o sangrento golpe militar contra Salvador Allende, o primeiro presidente socialista eleito na América do Sul.
Santiago do Chile, 11 de setembro de 1973. O mundo assiste, perplexo e consternado, ao mais sangrento e brutal golpe militar cometido em solo sul-americano, em um país cuja democracia era até então inabalável. O La Moneda, palácio presidencial, foi bombardeado impiedosamente por aviões da força aérea, no afã de entregar o serviço aos seus amos de Washington, cujo sinal (além do pagamento em dólares, pela transnacional da telefonia ITT) havia sido dado dias antes por Richard Nixon (o mesmo do Caso Watergate) e seu secretário de Estado, Henry Kissinger, aliás, Heinz Alfred Kissinger, alemão ex-nazista (existe ‘ex’?) naturalizado estadunidense depois de fugir, com Werner Von Braun (o ‘pai’ da tecnologia espacial dos Estados Unidos) e outros, e levar segredos nazistas para se garantir no poder no ocidente.
Pelas ondas da Rádio Bandeirantes, ouvíamos a narração, com a voz embargada, do analista e Jornalista Newton Carlos, enviado especial ao Chile desde a véspera do golpe. Apesar da censura e do apoio declarado do general-presidente Emílio Garrastazu Médici aos militares golpistas chilenos capitaneados por seu colega Augusto Pinochet, até então comandante do exército chileno, o eterno Newton Carlos (colaborador de O Pasquim e da agência Inter Press Service, IPS, por meio da qual prestou um grande serviço ao Jornalismo de Análise em toda a América Latina) soube driblar a censura e transmitir fidedignamente a resistência da sociedade civil chilena.
O sanguinário Pinochet não estava só na sórdida traição: sob estreito monitoramento da CIA e do Departamento de Estado no governo Nixon, além dos comandantes das forças armadas e da polícia militar chilena, empresários e segmentos privilegiados da sociedade chilena conspiraram contra o Estado de Direito no Chile, motivo de orgulho dos chilenos em todo o mundo. Até então, o Chile e o México se gabavam por acolher exilados inclusive perseguidos da Europa durante as ditaduras nefastas de Adolf Hitler, Benito Mussolini, António Salazar e Francisco Franco, dos quais os discípulos chilenos (e outros golpistas latino-americanos) são seu continuísmo.
Com a brutalidade de facínoras nazifascistas cultivada desde a juventude, essas bestas-feras, monstros que usaram armas pesadas contra civis, em sua imensa maioria sem o preparo para lutar em trincheiras meticulosamente espalhadas pelas principais cidades do país andino, executaram nas vias públicas, em plena luz do dia, quem atravessasse seu percurso. Não pouparam mulheres em tenra idade e idosas, religiosos, escritores (como o Poeta Pablo Neruda, já idoso e doente, Prêmio Nobel de Literatura), compositores (como Victor Jara, autor de ‘Te recuerdo Amanda’, cujos verdugos foram condenados dias atrás, depois de 50 anos de impunidade) e familiares de ativistas políticos, como se o fato de ser parente de dirigentes políticos justificasse uma sentença marcial.
A cobertura da Rádio Bandeirantes, sob a condução de Newton Carlos (o sinal da Rede Bandeirantes de Televisão ainda não tinha chegado ao estado, então Mato Grosso) era tão fidedigna, que quando chegavam os jornais do Rio de Janeiro, São Paulo e La Paz com as imagens (transmitidas por belinógrafo como radiofoto ou telefoto) eram confirmados os fatos narrados pelas ondas de rádio. Consternação e incredulidade tomavam conta dos que acompanhavam o cotidiano latino-americano, que então tinham como contraponto ao obscurantismo fascista a esperança existente no Oceano Pacífico, com destaque para o Chile e o México.
Truculentos até com o entretenimento, submeteram à censura ferrenha a emblemática revista Condorito, de criação de Pepo, desenhista chileno que fez escola nos países de língua hispânica, ao lado do argentino Quino (o célebre criador de Mafalda) e do espanhol Francisco Ibáñez (criador de Mortadelo e Salaminho, em espanhol ‘Mortadelo y Filemón’). Durante as décadas de 1970 e 1980, a ditadura chilena, que mantinha estreito vínculo com as ditaduras do ‘Cone Sul’ (Argentina, Brasil, Bolívia, Paraguai, Peru e Uruguai), realizou diversas operações repressivas transfronteiriças, um crime que ainda não foi devidamente punido pelos tribunais internacionais.
Na famigerada ‘Operação Condor’, da qual o inominável (e agora inelegível) disse ser simpatizante, Pinochet e seus sequazes disponibilizaram diversos campos de extermínio, onde os corpos de vítimas da repressão das ditaduras latino-americanas foram descartados da maneira mais sórdida e aviltante. A impunidade ainda protege os carrascos chilenos, como muitos nos demais países, à exceção da Argentina, que, graças às Mães de Maio e à altivez do povo argentino, todos os comandantes militares e seus comparsas civis foram condenados em sentenças históricas, depois de realizados os trabalhos da Comissão da Verdade, sob a coordenação do pensador e ativista dos Direitos Humanos Adolfo Pérez Esquivel, por isso Prêmio Nobel da Paz em 1980.
O Chile, durante o governo de Michele Bachelet e agora com Gabriel Boric, timidamente retoma o resgate da memória dos mártires da democracia chilena, mas a resistência dos setores castrenses inspira prudência, como em outros países latino-americanos. A Bolívia ainda não conseguiu concluir os processos judiciais dos envolvidos nos crimes de lesa humanidade e lesa pátria durante as ditaduras de René Barrientos, Hugo Banzer, García Meza e Jeanine Áñez. Igualmente o Brasil, depois do golpe travestido de impeachment contra Dilma Rousseff, não mais retomou os trabalhos da Comissão da Verdade, e muitos suspeitos de envolvimento em crimes de lesa-humanidade estão impunes e por isso com a empáfia de se considerarem inatingíveis, posando de ‘patriotas’.
A História tem demonstrado, a propósito, que, senão a Justiça, o tempo, esse senhor da razão, se encarrega de desmascarar as farsas, ou, melhor, de despir o rei, ainda que isso ocorra em eras em que os protegidos pela impunidade não estejam de corpo presente para ouvir a sentença inevitável. Um deles foi Filinto Müller, que tentou de todas as formas impedir que o jornalista David Nasser publicasse seu emblemático livro ‘Falta alguém em Nuremberg’, de 1966, início da segunda ditadura a que ele serviu. Não conseguiu, e ainda que fosse o todo-poderoso nos anos de chumbo (inclusive contra muitos getulistas que o protegeram na ditadura do estado novo), nunca conseguiu ser governador de seu próprio estado, o de Mato Grosso.
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