Ahmad Schabib Hany
ORA, ‘PINÓ-NHAS’...
Sex, 22 Setembro de 2023 | Fonte: Ahmad Schabib Hany
Os desdobramentos da delação premiada do tenente-coronel Mauro Cid não só tiram o sono dos mais graduados da caserna como fazem com que o inominável multifacetado apresente agora sua versão ‘Pinó-nhas’, isto é, enxerto de Pinóquio em Patinhas.
Foi só ser noticiada a homologação da delação premiada do ex-ajudante de ordens do inominável, ele precisou fazer um remake de sua dramatização de ter que ser operado às pressas no ‘Hospital Albert Einstein’, em São Paulo.
Mas, qual urgência? Antes nós, reles mortais, pensávamos que o problema dos intestinos fossem uma questão anatômica. Antes fosse, parece que é psicótica...
As imagens do que deveria ter sido uma cirurgia de urgência no aparelho digestivo (mais precisamente nas imediações do intestino, em que o inominável teria sofrido ferimento quando do atentado em Juiz de Fora em 2018) dão conta de que não há indícios de ter sido realizada uma cirurgia sobre a região hipoteticamente traumatizada no ano eleitoral.
Como toda farsa, essa não tinha como durar muito: as cirurgias não trataram do intestino, mas do nariz e de uma hérnia de hiato, segundo a nova equipe médica que o assistiu desta vez, diferente da fala do médico que socorreu o então candidato vitimado pelo atentado providencial (toda vez que participava de um debate entre candidatos, em 2018, perdia acintosamente adesão junto aos políticos e o ‘ibope’ perante o eleitorado).
Mas, como se isso fosse pouco, o leitor não imagina como se sentiram as hordas golpistas depois que a descendência do general Lauro Cid aceitou fazer a delação nos termos da lei e nada mais que isso (não à moda e ao gosto da ‘Leva Jeito’, de triste memória). Enquanto as forças de vanguarda dividiam seu tempo para fazer o tempo acontecer, as redações ligadas ao, no dizer do saudoso Jornalista Paulo Henrique Amorim, ‘partido da imprensa golpista’ (Globo, Abril, Folha e Estado), faziam de tudo para deixar como está -- porque as famílias Marinho, Civita, Frias e Mesquita devem um pedido de desculpas à nação, eis que o golpe contra a Dilma e Lula (em aliança com a peçonha do ‘MBL’, ‘Vem pra rua’ et caterva e a republiqueta de Curitiba) produziu este monstro e o genocídio que causou.
Esperar que uma personalidade bisonha se torne acolhedora, solidária e cheia de empatia, seria muita ingenuidade. E, insisto, é de família. Ou melhor, de casta: além da prole com mesmo DNA, há agregados, recalcados, renegados, foragidos, indisciplinados, milicianos e similares. E pelo andar da carruagem, há também um sem número de pastores formados, não em seminários, mas em cumprimento de penas, em cadeias, que, como o inominável, muito chegados ao comportamento de ‘Pinó-nhas’, mentir e acumular, por que será?
Não há problema ser conservador. Não é crime ser ‘de direita’. O erro dos que foram atrás de um mentiroso contumaz e acumulador psicótico foi a opção por um ser totalmente pervertido, perverso e, sobretudo, malversador. É o conjunto da obra a que literalmente levou este país-continente a retroceder no tempo, no espaço e na civilidade. Que fique a lição, para que este mal não se repita, sobretudo em nome do patriotismo e da fé.
Não esqueçamos de que é fundamental ler e refletir. É a melhor vacina para evitarmos o contágio desse comportamento pernicioso, muito comum em personalidades arrogantes, os detestáveis ‘donos do mundo’, ‘donos da verdade’, ‘donos da moral’, ‘donos da pátria’, ou melhor, os tais ‘messias’ (minúscula, por favor!), porque não é um, mas uma horda.
O letramento, ou o domínio pelo ser humano da capacidade de decodificação e abstração de símbolos (na verdade, ideogramas, letras e palavras), transformou a humanidade, de tal sorte que hoje, ainda que com os recalques recorrentes, é inquestionável seu processo evolutivo.
Em outras palavras, o poder da leitura e a faculdade de abstração fizeram com que a espécie humana chegasse a uma dimensão inegável em sua evolução, tamanho o condão de transformação constatado neste intrincado processo civilizatório.
É verdade que a proporção dos que têm prazer ou, pelo menos, disciplina -- e por isso se dedicam, ainda com certo sofrimento -- é ínfima, sobretudo diante da restrição material e social a que a imensa maioria da humanidade, por causa da cobiça, cizânia e ambição de uma minoria tacanha, foi submetida, sem dó nem piedade.
Também é verdade a milenar constatação de Tucídides, um dos precursores do estudo da História (o estratego grego que para superar a punição sofrida pela derrota militar dedicou sua vida a registrar para a posteridade e de modo analítico a Guerra do Peloponeso, em que a torpe elite militarista de Esparta imprimiu duros golpes à iluminada elite ateniense, diferentemente de Heródoto, tido como ‘pai’ da História, mas que fazia apologias sobre e para seus contemporâneos), que o uso da força pelos cultores dos embates marciais era também escape para sua ojeriza com a leitura e o saber, por crerem enfadonhos e inúteis.
É desnecessário dizer que, décadas depois, ao final da guerra iniciada pelos espartanos e aliados contra a iluminada Atenas e seu cosmopolitismo (Guerra do Peloponeso), os gregos sucumbiram em um longo processo de decadência, tendo sido subjugados por sucessivos impérios militaristas que impuseram ao seu legado de luz e civilidade uma invisibilidade que quase extingue muitas de suas contribuições (Heráclito de Éfeso, o Pai da Dialética, só teve a sua obra resgatada pelos árabes durante o apogeu civilizatório ‘mouro’ a que o ocidente, por meio dos alemães, teve acesso entre fins do século XVIII e início do século XIX, o que levou Hegel divulgar e Marx aplicar em sua concepção filosófica da História).
E o que isso tudo, afinal, tem a ver com ‘Pinó-nhas’?
Vamos lá. ‘Pinó-nhas’ é um enxerto de Pinóquio em Patinhas. Lembremos daquele boneco de madeira criado pelo artesão Gepeto que a Fada Azul transforma em um menino, que se tornou mentiroso e um tanto preguiçoso na adaptação animada de Walt Disney, em 1940, da obra imortal de Carlo Collodi (de 1883), em plena Segunda Guerra Mundial? Um clássico da literatura que Disney transformou em clássico do cinema. Quanto ao Patinhas, criado pelo cartunista Carl Barks em 1947, e que Disney também transformou em bem-sucedido personagem da indústria de entretenimento, conhecemos bem o sovina que é, sinônimo de ‘pão-duro’, sempre ambicioso, cuja compulsão por acumular riqueza e chegar ao ápice ao tomar literalmente banho em sua ‘piscina’ de dinheiro é marcante.
Aos poucos, vamos nos dando conta de que o inominável não é apenas um mentiroso, mas um acumulador ambicioso e avarento, que por dinheiro perde a noção. E são os até bem pouco tempo colaboradores mais próximos os que estão apresentando para o público perplexo o enxerto de Pinóquio em Patinhas, isto é, ‘Pinó-nhas’.
O inominável, esse ser de poucas luzes e multifacetado, que se prestou ao papel de fantoche de uma elite igualmente obtusa e canhestra, não é chegado a ler e refletir: sua pouca inteligência o priva de lampejos reflexivos, quando muito seus arroubos só o levam a delírios megalomaníacos e maldades compulsivas.
Por conta dos delírios megalomaníacos, fruto de uma insólita mente focada na maldade e destituída de qualquer empatia, tem uma capacidade doentia de mentir, mentir, mentir. Mente tanto, que até ele chega a acreditar em suas mentiras cabeludas. E, pior, os fatos dos anos recentes permitem constatar que essa perversidade é hereditária e, pasmem, contagiosa: pessoas recalcadas são potencialmente contagiáveis nesse convívio promíscuo (ou não nos lembramos mais de sua confissão de que sentira ‘um clima’ ao ver um grupo de adolescentes venezuelanas em seu passeio pela periferia de Brasília?).
‘Pinó-nhas’, caro leitor, não é um eufemismo (como, aliás, gostaria que fosse), mas triste, tristíssima realidade de elites mal resolvidas desde que a família imperial deixou a corte, em 1889. Como a República foi um golpe militar de agregados do palácio imperial, as castas (castrenses e de exploradores de escravizados) se sentiram no direito de impor uma ordem e um progresso ao sabor de seus nada republicanos conceitos e valores. Mas depois da promulgação da Constituição Cidadã, em 5 de outubro de 1988 (portanto 35 anos atrás), a História começa a transformar esta bizarra mentalidade.
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