Ahmad Schabib Hany
QUEM DESDENHA QUER COMPRAR
Qua, 16 Setembro de 2026 | Fonte: Ahmad Schabib Hany
Na tentativa de embaraçar o processo eleitoral, André Mendonça usa a toga para impactar a sociedade com medidas nada republicanas, papel que entrará para a história como ativismo político igual ao da Lava Jato, de triste memória, e que como não foi devidamente punida pela mais alta corte, hoje seu expertise se volta contra a guardiã da Constituição, sob acintosa ameaça da Casa Branca, ávida por meter as garras no território brasileiro.
15 de setembro de 2026. Durante parte da manhã e parte da tarde o plenário do Supremo Tribunal Federal foi objeto da atenção de milhões de espectadores do Brasil e do mundo, a 19 dias do primeiro turno das eleições gerais de 2026, quando cada eleitor brasileiro irá exercer seu sagrado e soberano direito de eleger, solitária e livremente, o presidente da República e seu vice-presidente, senadores e deputados federais, governador e vice-governador, deputados estaduais e distritais.
O pivô do ataque ao principal bastião do Estado Democrático de Direito, um medíocre burocrata saído das hostes bolsonaristas sob o rótulo da religiosidade mais cínica, conseguiu, sim, uma vitória parcial: afinal, após longa e obscura hibernação no posto para onde foi guindado, transformou-se em herói por meio do consórcio golpista -- mercenários digitais comandados desde Miami, políticos conservadores, oligarcas da mídia corporativa, financeiras, agronegócio, mineração, fé mercantilizada, burocratas desviados do judiciário, das procuradorias de justiça e dos órgãos de segurança e, pasmem, chefes do crime organizado em suas diferentes ramificações --, que, cúmplice da patranha, mandou confeccionar um "pixuleco" -- boneco inflável --, tentando repetir o êxtase das hordas ensandecidas da década anterior.
Não fosse a vigorosa defesa do Estado Democrático de Direito pelos ministros Gilmar Mendes (Decano da Corte), Flávio Dino, Alexandre de Moraes e Cristiano Zanin, a trama golpista articulada desde Miami -- afinal, a direita brasileira deu provas de sua falta de inteligência durante o desgoverno do inominável, de cujo gabinete ministerial o autodeclarado 'ungido' foi pinçado para o STF e até pouco mais de um mês não havia dito a que viera, para desespero do clã miliciano que sangrou a soberania nacional em todas as dimensões -- teria sido avassaladora.
A simpática e erudita ministra Cármen Lúcia, eloquente defensora do vernáculo, continua relativizando a sobrevivência do Estado Democrático de Direito e seu papel histórico na Corte. Luiz Fux e Dias Toffoli, decorrida uma década e meia das provações a que a história os submeteu, ainda não compreenderam o valor emblemático da toga, que parece ter ficado maior que a própria personalidade. Fachin, a despeito da digna biografia pré-tribunal, até agora está à procura de seu rumo -- dá impressão de que vive sob pressão de alguém que o faz refém.
Pequenos burocratas?
Longe de pretender competir com os eficientes estudiosos deste intrincado e nada generoso contexto histórico, mas não é preciso ser brilhante analista para compreender que por trás da crise motivada por Mendonça já deflagrado o processo eleitoral (e a despeito da encenação de ator canastrão que caracteriza seu desempenho de aprendiz de feiticeiro): ao tentar deslegitimar a eficiente condenação dos golpistas de 8 de janeiro, o terrivelmente ungido não só mirou na grandeza do colega, como na relevância da Corte como guardiã do Estado de Direito, da Democracia e da Soberania, a serviço dos aliados dos dois filhos do ex-presidente que o indicou há quatro anos.
E se isso fosse pouco (o que não é, e ele tem clareza disso), fragilizar a Corte guardiã da Constituição neste momento de polarização política e de assédio estrangeiro é criar ambiente propício para eventual golpe, frustrado quatro anos atrás por conta da postura do presidente Joe Biden, cujos interlocutores receberam um não rotundo quando lhe propuseram essa aventura sinistra -- atualmente a posição é exatamente oposta, tanto que um dos filhos do patriarca golpista abandonou o cargo eletivo para de dentro da Casa Branca negociar tudo o que Donald Trump quiser para apoiar o plano entreguista do clã.
Por que defender o binômio Democracia-Soberania?
Essa conquista -- hoje, aliás, desdenhada -- levou mais de vinte e cinco anos para se concretizar, período em que inúmeros brasileiros perderam não apenas a liberdade, mas a integridade física e a saúde mental, quando não a própria vida nas masmorras clandestinas dos centros de tortura e de execução de seres humanos descartados por um regime não muito diferente ao de Adolf Hitler, cujos jagunços são até hoje idolatrados pelos seus sequazes.
Os mesmos facínoras que protagonizaram a intentona golpista de 8 de janeiro de 2023 estão, sem qualquer dissimulo, a atiçar a cadela no cio do fascismo que desde a Casa Branca atenta contra a Soberania, a Democracia e o Estado de Direito: covardes, sentem-se fortalecidos pela agressão continuada do império em franca decadência, com quem pactuaram entregar todas as riquezas naturais e a vida do povo brasileiro, como moeda de troca por sua ingerência eleitoral.
Como bem ensina o ditado popular, os mesmos que banalizam as instituições democráticas que fazem do Brasil uma das maiores democracias do planeta são aqueles que se servem delas para atingir seu funesto objetivo: acabar não só com as liberdades democráticas, mas com todas as prerrogativas constitucionais sabiamente construídas durante os últimos 38 anos, com muita luta e habilidade.
É hora de agir, de virar o jogo
Sobretudo às mulheres, jovens e idosos, é hora de conversar civilizadamente e tentar virar o jogo desde dentro de suas próprias famílias e grupos de amigos: cada voto é uma conquista. Trata-se da sobrevivência da Democracia, do Estado de Direito e da Soberania, e isso representa a garantia de um salário digno, com poder de compra e correção monetária, direito de aposentadoria a todos os que trabalham, existência do SUS pleno e manutenção da educação pública, desde a alfabetização até a universidade.
Certo de já ter conseguido o que pretendia com ajuda de Mendonça, Zero-hum (Flávio, o filho-candidato) já apresentou, ao lado de sua assessora econômica, o que seria seu 'plano de governo', assumidamente 'inspirado' na experiência do desgoverno de Javier Milei na Argentina: redução de salários e aposentadorias, o que está levando a suicídios de pessoas da terceira idade, além da redução de postos de trabalho, das privatizações e dos cortes orçamentários na educação, saúde e assistência social. E o mais grave: a entrega de reservas de minerais críticos e terras raras, territórios paradisíacos como a Patagônia e Terra do Fogo, expulsando por meio de repressão os povos originários.
Diante disso, não se trata de gostar ou não de Lula. Votar nele neste momento é um ato de sobrevivência do povo brasileiro, da soberania, da democracia, e do Estado de Direito -- o que representa a manutenção dos programas sociais para garantir a sobrevivência das pessoas da base da pirâmide social, os concursos para preenchimento de cargos de carreira no serviço público e, sobretudo, a garantia de aposentadoria e reajustes salariais periódicos aos trabalhadores. Isso em um tempo de conflitos bélicos em todos os continentes representa um ganho para quem vive de seu trabalho e conta com programas sociais para deixar um fôlego às famílias das camadas populares.
Quem viver verá.
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