Gregório José
A INCRÍVEL ARTE DE ESQUECER O INESQUECÍVEL
Sáb, 20 Junho de 2026 | Fonte: Gregório José
Há quem diga que os aplicativos de transporte revolucionaram a mobilidade urbana. Talvez. Mas uma contribuição pouco reconhecida dessas plataformas foi a criação de um vasto e involuntário museu nacional dos objetos esquecidos.
Todos os dias, milhares de passageiros entram em carros de aplicativo carregando a própria vida em sacolas, mochilas, bolsas e pensamentos. O problema é que, na hora de sair, parte dessa vida resolve permanecer no banco traseiro.
Até certo ponto, tudo parece compreensível. Um celular esquecido conta uma história. Uma carteira também. Um guarda-chuva, então, nasce praticamente com vocação para desaparecer. O estranho começa quando o esquecimento ganha ambição.
Segundo levantamento divulgado por uma das plataformas do setor, passageiros conseguiram abandonar durante as viagens uma cartela com 60 ovos, três melancias inteiras e um barril de chopp (ou chope) de 50 litros. Não se trata apenas de distração. É um compromisso quase artístico com o desapego.
Imaginar a cena é inevitável. A pessoa chega em casa, abre a porta, cumprimenta a família, toma um copo d'água, conversa sobre o dia e, só algum tempo depois, percebe que as três melancias ficaram passeando pela cidade.
Os eletrodomésticos também merecem destaque. Houve quem esquecesse liquidificador, cafeteira elétrica e até uma airfryer recém-comprada. O entusiasmo pela aquisição parece ter sido tão grande que o comprador chegou em casa levando apenas a felicidade.
Nem os objetos de valor sentimental escapam. Um passageiro deixou para trás um pé de galo que pertencia à avó. Outro esqueceu a parte inferior da dentadura. Um terceiro perdeu um dente recém-caído. Em algum lugar do país, um motorista provavelmente olhou pelo retrovisor e se perguntou se havia acabado de transportar uma mudança ou um capítulo de realismo fantástico.
A distração atingiu categorias profissionais conhecidas justamente pela atenção aos detalhes. Um piloto esqueceu o quepe. Um profissional da segurança deixou o cassetete. Músicos abandonaram berimbaus. Atletas deixaram troféus. Se a memória fosse modalidade olímpica, alguns competidores estariam em situação delicada.
Mas nada supera os objetos grandes. Porque esquecer uma chave é humano. Esquecer uma televisão de 55 polegadas exige planejamento. Um ventilador de pé também apareceu na lista. Não é fácil ignorar um equipamento que ocupa mais espaço do que alguns passageiros.
Talvez o caso mais triste seja o da peça de dominó esquecida. Apenas uma. A de sena e terno. Em algum domingo, uma família inteira deve ter interrompido a partida para discutir teorias, suspeitos e possíveis conspirações.
Os campeões de desaparecimento continuam sendo os velhos conhecidos. Celulares, chaves, bolsas, mochilas, óculos e carteiras lideram o ranking nacional da distração. Eles formam a elite do esquecimento brasileiro, sempre presentes, sempre perdidos.
No fundo, os carros de aplicativo se transformaram em testemunhas privilegiadas da correria moderna. Transportam passageiros apressados, preocupações urgentes, compromissos inadiáveis e, ocasionalmente, melancias abandonadas.
A boa notícia é que recuperar um objeto perdido ficou mais fácil com os recursos disponíveis nos aplicativos. A má notícia é que, antes de procurar ajuda, é preciso lembrar exatamente o que foi esquecido.
E essa, convenhamos, costuma ser a parte mais difícil.
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