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Gregório José

O DIA EM QUE A FELICIDADE PERDEU A HORA

Dom, 05 Julho de 2026 | Fonte: Gregório José


Outro dia percebi uma cena curiosa. Uma criança corria atrás de uma bola enquanto o pai caminhava alguns metros atrás, falando ao telefone. A bola escapava. A criança ria. O pai respondia e-mails. A criança descobria o mundo. O pai resolvia o mundo.

Os dois estavam no mesmo lugar. Apenas um deles estava realmente presente.

Talvez esse seja o retrato mais preciso do nosso tempo.

Aprendemos a organizar agendas, controlar investimentos, acompanhar indicadores, responder mensagens em poucos segundos e planejar os próximos dez anos. Mas esquecemos de notar o café esfriando sobre a mesa, a conversa interrompida por uma notificação e o silêncio que, de tão raro, passou a causar desconforto.

Parece que a felicidade também entrou na fila das metas.

Ela ficou para depois.

Depois da promoção.

Depois da viagem.

Depois da aposentadoria.

Depois de um número qualquer que convencionamos chamar de sucesso.

É curioso como tratamos a felicidade como um endereço, quando ela sempre foi um modo de caminhar.

Ninguém percebe isso enquanto está correndo.

A velocidade produz uma estranha ilusão. Faz acreditar que movimento é sinônimo de progresso. Nem sempre é.

Há pessoas que percorrem milhares de quilômetros sem sair do mesmo lugar.

Mudam de cargo, de cidade, de empresa, de carro e de relógio. Continuam carregando a mesma ansiedade que imaginavam deixar para trás na próxima conquista.

O problema nunca esteve na falta de sucesso.

Esteve na expectativa de que o sucesso resolvesse questões que pertencem à alma e não ao currículo.

Não existe bônus capaz de comprar paz.

Nem cargo que substitua afeto.

Nem patrimônio que devolva o tempo desperdiçado vivendo apenas para acumular patrimônio.

Isso não significa desprezar o trabalho.

O trabalho continua sendo uma das formas mais bonitas de transformar talento em utilidade.

O perigo começa quando ele deixa de ser instrumento e passa a ser identidade.

Quando alguém pergunta quem somos, respondemos com a profissão.

Como se uma carteira de visitas fosse suficiente para explicar uma existência inteira.

Talvez por isso tanta gente se sinta perdida no dia em que perde o emprego, se aposenta ou vende a empresa que construiu.

Durante anos acreditou que era o cargo.

Descobriu tarde demais que era muito mais do que isso.

Vivemos uma época obcecada por performance.

Tudo precisa render.

Até o descanso virou estratégia para produzir melhor na segunda-feira.

Ler virou investimento.

Caminhar virou meta.

Dormir virou indicador.

Sorrir quase exige justificativa.

Há uma estranha culpa em simplesmente estar.

Como se toda pausa fosse desperdício.

Talvez não seja.

Talvez seja justamente nas pausas que a vida aconteça.

Os momentos mais importantes raramente pedem aplausos.

Eles chegam discretamente.

Na mesa de um jantar comum.

Na ligação inesperada de um amigo.

No abraço que dura alguns segundos a mais.

Na conversa que não resolve problema algum, mas faz o peso diminuir.

São instantes pequenos demais para aparecerem em fotografias e grandes demais para desaparecerem da memória.

No fim, a vida costuma fazer uma pergunta desconfortável.

Ela não quer saber quanto dinheiro você ganhou.

Nem quantos títulos acumulou.

Nem quantas pessoas conheciam o seu nome.

Ela pergunta outra coisa.

Se todo o esforço valeu a pessoa que você se tornou.

É uma pergunta sem resposta pronta.

Ainda bem.

Algumas perguntas não existem para serem respondidas.

Existem para impedir que a gente passe a vida inteira correndo na direção errada.

Correio de Corumbá

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