Gregório José
*ENTRE RAQUETES E CONFETES*
Seg, 02 Fevereiro de 2026 | Fonte: Gregório José
Seu Antero não entendia muito de tênis, mas entendia de tempo. Daquele tempo que passa devagar quando a gente espera e rápido quando a gente desperdiça. Sentado na cadeira de fio, na calçada quente de fevereiro, ele acompanhava a televisão emprestada do bar da esquina mais por hábito do que por interesse. Foi assim que viu Carlos Alcaraz levantar o troféu do Australian Open, após vencer Novak Djokovic, o mesmo homem que, dez anos antes, o garoto espanhol assistia da arquibancada como quem vê um professor dar aula sem saber que um dia estaria no quadro-negro.
— Tá vendo? — disse Seu Antero, para ninguém em especial. — O mundo gira, mas não gira à toa.
A história era simples e quase moralista demais para os dias atuais: paciência, trabalho duro, sonho alimentado em silêncio. Mas Seu Antero desconfiava dessas lições muito arrumadinhas. Preferia observar os detalhes. Lembrou que, enquanto Alcaraz aprendia a esperar, o Brasil já começava a se apressar. Afinal, fevereiro chegara, e com ele o Carnaval, esse velho conhecido que, diferente dos governos, nunca falhou em aparecer.
Na mesma noite da vitória espanhola, os ensaios de bloco ecoavam pela cidade turística onde Antero vivia há décadas. A prefeitura, diligente como nunca quando o assunto é festa, investira pesado: palco novo, luz de LED, trio elétrico reluzente. Tudo para garantir que a alegria, essa senhora antiga, continuasse morando ali. Porque alegria também precisa de manutenção, pensava ele, não vive só de saudade.
O curioso, e aqui Antero coçava o bigode, num gesto herdado de cronistas dos tempos de Machado de Assis e Monteiro Lobato, é que o brasileiro sempre soube esperar do seu jeito. Espera o ano inteiro pelo Carnaval, assim como Alcaraz esperou dez anos pelo troféu. A diferença é que, enquanto um treinava em silêncio, o outro ensaiava em batuque. Ambos, no fundo, acreditavam que o esforço seria recompensado.
— Cada povo com sua raquete — concluiu Antero, agora sorrindo.
Entre confetes e manchetes, o Brasil segue dançando, sustentado por investimentos públicos, suor coletivo e uma teimosia alegre de continuar celebrando. Alcaraz levanta taças; o brasileiro levanta copos. Ambos comemoram vitórias que não cabem apenas no placar, mas na persistência.
E a moral da história, se é que Antero acreditava nelas, não vinha escrita em letras garrafais: não tenha pressa, mas também não perca a festa. Trabalhe duro, sonhe alto, e quando chegar fevereiro, celebre. Porque o tempo passa, mas quem sabe viver, aproveita cada intervalo.
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