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Gregório José

CHEGUEI. ESTOU NA PORTA!

Dom, 13 Setembro de 2026 | Fonte: Gregório José


Há uma mensagem que se tornou mais íntima do que um bom dia, mais frequente do que um abraço e, em certos casos, mais esperada do que uma visita de parente.

Estou na porta.

Ela chega ao celular em qualquer hora. De manhã, quando ainda estamos de pijama. À tarde, quando a casa cheira a alho refogado. À noite, quando já apagamos algumas luzes e fingimos que o dia terminou. O telefone vibra e lá está o homem, a mulher, o rapaz da bicicleta, o sujeito da moto, todos eles com a mesma notícia. Cheguei, estou na porta.

Antigamente, a porta tinha outra função. Era uma espécie de fronteira entre o mundo e a família. Batia-se três vezes, alguém perguntava quem era, e a voz do outro lado precisava se identificar. Havia uma pequena cerimônia. O visitante esperava o dono da casa decidir se abria.

Hoje, a porta virou um endereço eletrônico.

As lojas diminuem o número de caixas. Os mercados reduzem os funcionários. O balcão, que antes era lugar de conversa, de reclamação, de fiado e de intimidade, vai ficando silencioso.

A carne, o leite, o pão, a fruta, o arroz, o feijão, tudo pode chegar à cozinha sem que o comprador tenha visto o rosto de quem separou a mercadoria.

Lembro dos Correios com certa ternura. Uma carta demorava. Às vezes demorava tanto que, quando chegava, a notícia já tinha envelhecido. O destinatário abria o envelope com uma expectativa que hoje parece absurda. O papel podia trazer uma declaração de amor, uma cobrança, uma morte, uma promessa.

E havia o telegrama.

Será que ainda existe?

Não sei. Faz anos que não recebo um.

Depois vieram as entregas de comida. A pizza chegava quente, o sanduíche chegava embrulhado, e o sujeito descobriu que podia jantar sem sair de casa. O fast food foi um ensaio para a vida atual. Entregaram o jantar, depois o livro. O sapato. Agora entregam a feira. A dona de casa, o estudante, o aposentado, o executivo, todos podem pedir o que quiserem e aguardar. Não há fila. Não há carrinho com uma roda defeituosa. Não há criança pedindo chocolate.

A comida vem até nós. O remédio. A roupa. A compra do mês. Em breve, talvez o próprio mundo venha embalado numa sacola.

O entregador, esse personagem nosso de cada dia, tornou-se uma espécie de mensageiro dos desejos alheios. Ele carrega o que o outro pediu, atravessa a cidade, enfrenta a chuva, o trânsito, a pressa e a indiferença.

Estou na porta.

Há uma solidão escondida nessa frase. Apessoa está na porta, mas não é exatamente esperado. É esperado o produto que traz. A mercadoria é o centro da cena.

Não digo isso para condenar ninguém. Eu também recebo encomendas. Também espero a sacola com a ansiedade. Também olho o celular para saber se a compra está na porta.

Antes, esperávamos semanas por uma carta. Hoje, ficamos irritados quando demora minutos. O comércio local perde espaço, os grandes mercados se adaptam, os aplicativos crescem.

A pergunta é o que virá depois?

Existe uma coisa que o aplicativo não entrega. A conversa no balcão. O olhar do açougueiro. O bom dia da moça do caixa. A pequena demora que nos permitia perceber que ainda havia outras pessoas vivendo no mesmo mundo.

Talvez seja essa a mercadoria que estamos deixando de comprar.

O tempo.

E, enquanto penso nisso, o celular vibra.

Cheguei, estou na porta.

Vou abrir.


 

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