17 ℃

Gregório José

O VICIO NAS REDES SOCIAIS AUMENTA A CADA DIA E NOS PRENDE EM BANALIDADES

Qua, 04 Fevereiro de 2026 | Fonte: Gregório José


Acordamos, escovamos os dentes com uma mão e com a outra já estamos deslizando o dedo na tela. Não é reflexo, é hábito. O Instagram deixou de ser rede social faz tempo e virou um tipo de sala de espera permanente da vida moderna. Espera-se o ônibus, o almoço, a resposta do chefe, o sentido da existência. Tudo com filtro.

A pesquisa mais recente sobre o uso do Instagram no Brasil confirma o que qualquer cidadão com um mínimo de miopia digital já suspeitava. A maioria entra todo dia, várias vezes ao dia, como quem confere se o mundo ainda está lá. E está. Um pouco retocado, um pouco exagerado, bastante patrocinado. Stories reinam absolutos, rápidos como fofoca boa. Reels hipnotizam com a delicadeza de um caça-níquel emocional. Salva-se conteúdo como quem promete a si mesmo que um dia vai ler aquele livro comprado em promoção.

O usuário jura que controla a ferramenta, mas o algoritmo conhece mais seus desejos do que a própria família. Metade acha que os anúncios têm a ver com seus interesses. A outra metade ainda acredita em livre arbítrio. Quase todos já compraram alguma coisa porque alguém bonito, simpático e convenientemente sincero recomendou. Influenciador virou o velho vendedor da porta ao lado, só que agora entra pela sala sem pedir licença.

Há também o desconforto moral. A maioria reconhece que o Instagram faz mal em excesso, espalha fake news, vende padrões de beleza que nem o Photoshop consegue sustentar. Mesmo assim ninguém larga. No máximo faz um detox de fim de semana, que dura até o tédio bater no domingo à noite. Sente-se saudade da época em que era só foto quadrada e legenda ruim. Nostalgia é isso, reclamar do presente usando o passado como filtro.

O detalhe curioso é que esse castelo de likes pode estar construído sobre areia movediça. Países começam a discutir e aprovar restrições ao uso de redes sociais por menores de 16 anos. Justamente eles, os maiores consumidores de tempo, energia e anúncios. Sem essa turma, a engrenagem range. O engajamento cai, o lucro pisca amarelo, o discurso da conexão ganha tom de comunicado oficial.

Talvez o futuro das redes seja menos glamouroso do que promete o feed. Menos horas, menos excessos, menos ilusão cuidadosamente editada. Ou talvez não. Talvez a gente apenas encontre outro aplicativo para repetir o ritual. O brasileiro gosta de rede social como gosta de fila. Reclama, critica, mas entra todo dia. E ainda chama os outros.

Correio de Corumbá

SIGA-NOS NO Correio de Corumbá no Google News

 
 
 

Veja Também

A INCRÍVEL ARTE DE ESQUECER O INESQUECÍVEL

Há quem diga que os aplicativos de transporte revolucionaram a mobilidade urbana. Talvez. Mas uma contribuição pouco reconhecida dessas plataformas foi a cri...

UM SÉCULO DE SILÊNCIO SOBRE UMA SUJEIRA

Há algo profundamente perturbador quando um governo decide esconder informações por cem anos. Não se trata de uma década. Não se trata de uma geração. Trata-...

AMBIENTE DIGITAL JÁ OCUPA UM PAPEL CENTRAL NA JORNADA DE CONSUMO DO BRASILEIRO

O levantamento é importante porque trata de um tema que, durante muito tempo, foi considerado apenas uma etapa operacional do comércio eletrônico. Hoje, a en...

QUANTAS VIDAS PODERIAM SER SALVAS COM R$ 5 BILHÕES?

Esta é a pergunta que deveria encerrar qualquer debate sobre o tema. O que o Brasil poderia fazer com quase R$ 5 bilhões? Quantos hospitais poderiam ser ampl...