Cultura
Acervo digital preserva legado de Sarah Abussafi Figueiró e revela parte da história da dança sul-mato-grossense
Projeto conduzido pela neta, Maria Fernanda Figueiró, digitaliza mais de 33 horas de de fitas VHS, além de documentos históricos, folders e registros administrativos.
Seg, 01 Junho de 2026 | Fonte: Assessoria de Imprensa
Mais de duas décadas depois de entregar ao Museu da Imagem e do Som (MIS) documentos que ajudaram a contar a trajetória da dança em Mato Grosso do Sul, o gesto de preservação da falecida Sarah Abussafi Figueiró ganha um novo capítulo. Desta vez, pelas mãos da neta, a bailarina, pesquisadora e produtora cultural Maria Fernanda Figueiró.
Aprovado pela Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), o projeto Acervo da Dança Sul-Mato-Grossense* nasceu do desejo de preservar e democratizar o acesso a um conjunto documental que reúne parte importante da memória da dança no Estado. O material, doado por Sarah ao MIS em 2002, reúne documentos da Associação Sul-Mato-Grossense dos Profissionais de Dança (ASMPD), entidade que ela presidiu e que esteve à frente da organização dos primeiros grandes movimentos da dança sul-mato-grossense.
A iniciativa digitalizou documentos históricos, folders, registros administrativos e cerca de 33 horas de conteúdo audiovisual armazenado em fitas VHS. Mais do que conservar arquivos ameaçados pela ação do tempo, o projeto pretende garantir que futuras gerações tenham acesso a uma história construída por artistas, professores, coreógrafos e produtores que dedicaram suas vidas à dança.
Vale ressaltar que o projeto é realizado com recursos do Edital de Chamamento Público Nº 04/2025 - Concessão de Bolsas Culturais de Pesquisa, Intercâmbio Cultural e/ou Aprimoramento Artístico. Realizado com apoio do Governo de Mato Grosso do Sul, por meio da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul, e do Governo Federal, por meio do Ministério da Cultura.
O início
Uma das curiosidades desse projeto é que ele foi idealizado após uma interessante coincidência que emocionou a própria idealizadora. Durante pesquisas realizadas para a criação do espetáculo de dança "Chafica", homenagem à avó produzida em 2023, Maria Fernanda encontrou uma reportagem publicada em 2002, a manchete anunciava: “História da dança vai para o MIS”. Foi naquele momento que ela descobriu que Sarah havia realizado a doação do acervo ao museu.
A curiosidade levou a neta até o MIS, onde teve o primeiro contato com o material preservado. O que começou como uma visita de pesquisa transformou-se em um compromisso de continuidade.
“Minha avó nunca chegou a comentar comigo sobre essa doação. Descobri esse gesto de cuidado por meio de uma reportagem de jornal. Foi ali que nasceu o desejo de digitalizar o acervo e ampliar o acesso público a esse patrimônio”, relembra.
O reencontro entre passado e presente ganhou um significado ainda maior durante a execução do projeto. Ao retirar as fitas VHS para digitalização, Maria Fernanda assinou o termo de empréstimo do material no dia 7 de agosto de 2025, já o documento original de doação, assinado por Sarah, está datado de 6 de agosto de 2002, exatamente 23 anos e um dia depois.
“Foi emocionante perceber que, duas décadas depois, eu estava voltando à mesma instituição para dar continuidade ao gesto iniciado por ela: preservar e compartilhar a memória da dança sul-mato-grossense”, conta.
Uma vida dedicada à cultura
Filha de imigrantes libaneses que chegaram ao Brasil pelo porto de Corumbá, Sarah Abussafi Figueiró nasceu em Campo Grande e construiu uma trajetória marcada pela defesa da arte e da cultura.
Professora de artes, foi a primeira presidente da Associação Sul-Mato-Grossense dos Profissionais da Dança, presidiu entidades culturais e artísticas do Estado, fundou associações e esteve à frente dos 13 primeiros Festivais Sul-Mato-Grossenses de Dança, realizados entre 1985 e 1998.
Também participou da fundação da Rede Feminina de Combate ao Câncer de Campo Grande e recebeu o título de Delegada da Associação Interamericana de Dança.
Sarah faleceu em 2019, aos 85 anos, deixando uma contribuição que ultrapassa a dimensão institucional. “Antes de tudo, ela era minha avó. Uma pessoa muito presente, que gostava de contar histórias, ouvir música, conversar e compartilhar memórias. Ela me ensinou a importância da palavra, da história e da memória. Acho que essa foi a maior herança que me deixou”, afirma Maria Fernanda.
Os festivais que ajudaram a construir a dança no Estado

Entre os materiais preservados estão documentos relacionados aos históricos Festivais Sul-Mato-Grossenses de Dança, realizados anualmente pela ASMPD durante treze anos.
As edições reuniram academias, grupos e companhias de diversas regiões do país, além de oferecer oficinas, workshops e intercâmbios artísticos que contribuíram para a formação de gerações de bailarinos.
Pelos festivais passaram importantes nomes da dança brasileira, como a Cia. Cisne Negro, Ballet Stagium, Grupo Raça, Quasar Cia. de Dança e Ballet Paula Castro. Também participaram jurados e personalidades reconhecidas nacionalmente, entre eles Beth Oliosi, Toshie Kobayashi, Roseli Rodrigues e Mariana Muniz.
Um dos registros mais afetivos encontrados no acervo remete à 13ª edição do festival, em 1998. Na ocasião, o bailarino Carlinhos de Jesus deixou uma dedicatória para Sarah: “Dona Sarah, que tua energia, sabedoria e simpatia possam continuar construindo os festivais sul-mato-grossenses de dança. Adorei conhecê-la, tenho o prazer de poder dizer que fui teu amigo. Você é o máximo!”
Um site para manter viva a memória
O projeto resulta em uma plataforma digital (sarahfigueiro.com.br) dedicada à preservação e difusão desse patrimônio histórico. Inicialmente, o site disponibiliza o acervo doado ao MIS, mas a intenção é que ele se torne, futuramente, um espaço ampliado de memória da dança sul-mato-grossense.
A ideia inclui a incorporação de novos materiais, documentos e registros capazes de ampliar a compreensão sobre a construção da dança no Estado. Para Maria Fernanda, preservar esses arquivos significa muito mais do que guardar documentos. “Sem memória, nossa atuação artística empobrece. Precisamos conhecer quem veio antes de nós, quem lutou para que hoje tivéssemos mais espaços e possibilidades. A dança que fazemos hoje também é resultado dessas histórias.”
Ao digitalizar documentos organizados décadas atrás pela própria avó, muitos deles cuidadosamente catalogados à mão, em uma época sem computadores, planilhas ou internet, Maria Fernanda encontrou não apenas registros históricos, mas a confirmação de um legado. Um legado que continua vivo na mesma paixão pela dança, pela cultura e pela necessidade de contar histórias. Histórias que agora poderão atravessar o tempo e alcançar novas gerações.


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