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Serra do Amolar é ‘arca’ para proteger mais de 200 espécies e abriga registro raro de casal de tatu-bola

Entre os achados recentes mais emblemáticos obtidos pelo trabalho de monitoramento da fauna feito pelo Instituto, destaca-se o raro registro de um casal de tatu-bola.

Ter, 28 Julho de 2026 | Fonte: Assessoria de Imprensa


 Serra do Amolar é ‘arca’ para proteger mais de 200 espécies e abriga registro raro de casal de tatu-bola
Fotos: divulgação/IHP

Neste dia 28 de julho, celebra-se o Dia Mundial da Conservação da Natureza, data que reforça o papel estratégico dos ecossistemas conservados para o equilíbrio do planeta. No coração do bioma pantaneiro, a Serra do Amolar, no município de Corumbá (MS), reafirma sua posição de santuário ecológico ao atuar como uma verdadeira “arca” para a proteção de mais de 200 espécies registradas a partir do monitoramento feito pela equipe técnica do Instituto Homem Pantaneiro (IHP), sendo que 10 delas figuram sob elevado grau de ameaça, com classificação “vulneráveis” ou “em perigo”. Entre os achados recentes mais emblemáticos obtidos pelo trabalho de monitoramento da fauna feito pelo Instituto, destaca-se o raro registro de um casal de tatu-bola (Tolypeutes matacus), uma das espécies brasileiras mais vulneráveis ao impacto do fogo e aos efeitos severos das mudanças climáticas.

O tatu-bola vinha sendo classificado como uma espécie quase-ameaçada pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança Climática (plataforma SALVE), mas está em processo uma revisão que sinaliza agravamento para a existência da espécie. Os níveis de classificação, do mais grave para o menos, é: extinto, extinto na natureza, criticamente em perigo, em perigo, vulnerável, quase ameaçada, menos preocupante, dados deficiente ou não avaliada.

O achado reforça a relevância do trabalho contínuo desenvolvido pelo Instituto Homem Pantaneiro (IHP), que há mais de 10 anos mantém um programa estruturado de monitoramento ambiental de fauna e flora no Pantanal. A atuação na Serra do Amolar permitiu a criação de um banco de dados científico robusto e de longo prazo, fundamental para compreender a dinâmica das populações de animais silvestres, subsidiar estratégias de combate a incêndios e orientar políticas públicas ambientais.

No caso específico do tatu-bola, o registro feito neste ano do casal permite avanços em estudos sobre comportamento, principalmente para contribuir com outras instituições e fortalecer políticas públicas para conservar a espécie. Conforme o Instituto Chico Mendes de Conservaçã da Biodiversidade (ICMBio), a distribuição do tatu-bola no Brasil ainda é pouco conhecida e conta com poucas ocorrências confirmadas.

“A nossa grande dedicação envolve conservar a biodiversidade pensando no território, nas suas interconexões, na coexistência com o ser humano. Por isso, no nosso trabalho, entendemos que é preciso estar presente no território, usar a ciência e a tecnologia, além de manter o respeito e atuar em conjunto com as comunidades. O monitoramento que realizamos por mais de 10 anos nos entrega dados que permitem estudar as espécies e buscar entender como elas estão reagindo às transformações do clima e aos eventos extremos no Pantanal. O registro que tivemos do casal de tatu-bola, por exemplo, significa que os esforços estão valendo a pena e precisar ser continuados”, celebra o presidente do IHP, Ângelo Rabelo.

Ciência e dados a serviço da conservação

O Pantanal ocupa o segundo lugar no mundo em densidade de mamíferos em um território, com índice de 0,724. Nesse contexto, a Serra do Amolar, que fica em uma área de divisa entre Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, além da fronteira com a Bolívia, garante uma importância a mais para esse ecossistema por combinar áreas de morraria, campos inundáveis e vegetação nativa conservada, reunindo em uma só região com 80 km de extensão fragmentos de Mata Atlântica, Cerrado e características amazônicas.

A Serra do Amolar, com suas áreas conservadas e o Parque Nacional do Pantanal Matogrossense, funciona como um corredor ecológico para garantir habitat mais saudável para centenas de espécies de animais, incluindo o tatu-bola. A presença contínua do IHP no território envolve a gestão de Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs) e o uso de tecnologia — como armadilhas fotográficas, sistemas de bioacústica — para acompanhar a biodiversidade.

“Na Serra do Amolar, a gente conseguiu identificar os registros do maior tatu do mundo, que é o tatu canastra. Agora, tivemos o registro do menor tatu que existe no Brasil, o tatu-bola. Essa espécie vem sendo reclassificada em seu status de conservação pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança Climática. Infelizmente, o tatu-bola entrou em uma zona de perigo, próximo aos níveis de ameaça em seu status. Ele é um dos únicos que consegue se enrolar e se transformar em uma bolinha, encaixando perfeitamente a cabeça com a cauda e ficar em uma esfera perfeita. O registro foi feito durante campanha de busca ativa em área de reserva particular de patrimônio natural (RPPN). Saber que há um casal nessa região representa uma importância global em termos de conservação e a idade deles foi identificada como preparados para o estágio reprodutivo. Esse monitoramento vai seguir para tentarmos identificar filhotes futuramente”, detalhou o analista ambiental do IHP, Luka Moraes.

Além do tatu-bola, o banco de dados do IHP acompanha o comportamento de grandes felinos, como a onça-pintada. Atualmente, há um estudo em andamento para estimar a densidade populacional da espécie na região da Serra do Amolar. Também está sendo feito monitoramento a partir do uso de bioacústica para compreender o comportamento de ariranhas.

Dados do ICMBio

Tolypeutes matacus ocorre na Bolívia, Paraguai, Argentina e no Brasil, onde está restrita ao Pantanal, com registros a sudoeste do Mato Grosso e a oeste do Mato Grosso do Sul. A principal ameaça à espécie é a degradação do habitat pela expansão das atividades agropecuárias, uma vez que depende de ambientes florestados para termoregulação. Além disso, a captura para consumo, exportação para zoológicos ou criação como animais de estimação pode representar impacto à população. A Extensão de Ocorrência (EOO) de 9.181 km², calculada a partir do mínimo polígono convexo (MPC), e o declínio continuado na qualidade do habitat em função das atividades agropecuárias quase qualificam a espécie como Vulnerável (VU), pelo critério B1b(iii) – informações prestadas que estão sob análise para reclassificação.

Notas Morfológicas

Tolypeutes matacus possui a carapaça marrom e a maioria dos indivíduos tem três bandas móveis, mas este número pode variar de duas a quatro bandas móveis (Nowak, 1999). T. matacus tem quatro dedos em cada membro anterior, enquanto Tolypeutes tricinctus possui cinco. Os membros posteriores em ambas as espécies do gênero Tolypeutes possuem cinco dedos, sendo que, o segundo, terceiro e quarto dedos são fundidos, e o primeiro e quinto ligeiramente separados. As orelhas são amplas, ásperas e com bordas levemente serreadas (Parera, 2002 apud Medri et al., 2011, p. 85).

A cauda é coberta por escudos dérmicos e é pouco flexível (Nowak, 1999). É considerado o menor dos tatus do Pantanal com peso médio de 1,25 kg (Attias, 2017). O comprimento do corpo atinge até 25 cm, o comprimento da cauda é de 7 cm em média, e o comprimento da cabeça de 8 cm (Eisenberg e Redford, 1999; N. Attias, com.pess., 2022). Informações morfológicas gerais Massa de adultos: Em geral, cerca de 1,3 kg (Jones et al., 2009), 1,6 kg (Wetzel, 1985b). No Chaco Boliviano, teve uma média de 1,163 kg (1,0 a 1,5 kg) (Cuéllar, 2002). Fêmea – em média, 1,17 kg (SD = 0,12) (Attias, 2017). Macho – em média, 1,32 kg (SD = 0,12; Attias, 2017).

Comprimento total: Fêmea/Macho – de 21,8 a 43 cm (Redford & Eisenberg, 1992; Cuéllar, 2002; Ceresoli et al., 2003). Comprimento cauda (cm): Fêmea/Macho – de 6 a 8 cm (Redford & Eisenberg, 1992; Cuéllar, 2002).

Endêmica do Brasil: Não

Distribuição Global

Sua distribuição vai desde Santa Cruz na Bolívia, sul do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul no Brasil, passando através do Chaco no Paraguai, até as províncias de Buenos Aires, na Argentina (Schaller, 1983; Wetzel, 1985a; 1985b; Alho et al., 1987). Porém, Abba & Vizcaíno (2011) indicam que T. matacus foi localmente extinta em algumas áreas da Argentina, como na província de Buenos Aires, onde o último registro foi obtido em 1926.

Sendo assim, o limite sul da distribuição da espécie seria entre as latitudes 33° e 34° S, próximo às províncias de Mendoza e San Luis, no Oeste na Argentina (Feijó et al., 2015).

Distribuição Nacional

A área de distribuição do táxon foi estimada em 14.974 km² a partir dos registros de ocorrência disponíveis, ajustada, quando possível, de acordo com os limites biogeográficos de sua distribuição (e.g., rios e relevo) encontrados na literatura e/ou conforme sugerido por especialistas (Butti et al., 2022). A distribuição do Tolypeutes matacus é pouco conhecida no Brasil, com poucas localidades de ocorrência confirmadas (Anacleto et al., 2006; Porfírio et al., 2014; Faustino, 2015; Feijó et al., 2015).

O ponto de ocorrência mais a oeste indicado no mapa de distribuição da espécie apresentada por Feijó et al. (2015) parece se referir a um registro de museu para o “Rio Jauru”. Há um Rio Jauru que se encontra com o Rio Coxim nas proximidades da cidade de Coxim (MS) para formar o Rio Taquari, a leste do Pantanal. Entretanto, há um segundo Rio Jauru, que corre a oeste da Serra das Araras, nas proximidades de Cáceres (MT), que desemboca na margem oeste do Rio Paraguai.

O fato de haver dois rios com o mesmo nome pode ter criado confusão na definição da localização geográfica deste registro. Os registros de T. matacus ocorrem principalmente em zonas secas do Cerrado e Pantanal (Feijó et al., 2015), contudo é muito provável que a espécie esteja restrita à borda do bioma Pantanal e áreas de entorno ao noroeste do Pantanal.

A espécie tem ocorrência confirmada para a porção sudoeste dos estados de Mato Grosso e porção oeste do estado do Mato Grosso do Sul. No Pantanal, há registros recentes no oeste do estado de Mato Grosso, na região de Cáceres (De Lázari, 2013; Faustino, 2015; Feijó et al., 2015) e no norte do Mato Grosso do Sul, na Serra do Amolar (Schaller, 1983; Porfirio et al., 2014; Feijó et al., 2015).

Apesar do limite de distribuição ao nordeste ser pouco conhecido, a espécie parece ter sua distribuição ao leste limitada pelo rio Paraguai (Anacleto et al., 2006; Feijó et al., 2015). É necessário um esforço maior de amostragem na subregião do Paiaguás, ao norte do Pantanal, até a Chapada dos Parecis, na borda leste do Pantanal, e nos cerrados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e divisa oeste de Goiás. Dentro da planície pantaneira, T. matacus parece ser raro.

Registro de espécies mais ameaçadas

Conforme os levantamentos e registro dos pesquisadores, a região que forma o corredor de biodiversidade que engloba a região da Serra do Amolar, no Alto Pantanal, já abrigava nove espécies de fauna consideradas vulneráveis ou em perigo na Lista da IUCN Red List: Tayassu pecari – Queixada (VU), Sapajus cay – Macaco-prego-do-papo-amarelo (VU), Crax fasciolata – Mutum-de-penacho (VU), Myrmecophaga tridactyla – Tamanduá-bandeira (VU), Pteronura brasiliensis – Ariranha (EN), Tapirus terrestris – Anta (VU), Blastocerus dichotomus – Cervo-do-pantanal (VU), Sylvilagus brasiliensis – Tapiti (EN) – Priodontes maximus – Tatu-canastra. 

Correio de Corumbá

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