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Agronegócio

Comitiva que cruzou o Pantanal para ouvir quem produz e preserva para captar suas demandas genuínas

Comitiva Pecuária Tropical pelo Clima percorreu 500 km em quatro dias em uma jornada de escuta para organizar as demandas do território em propostas para que visam fortalecer a pecuária pantaneira e sua cultura.

Qua, 08 Julho de 2026 | Fonte: Assessoria de Imprensa


O Pantanal é feito de rios, campos alagados e uma biodiversidade reconhecida no mundo inteiro. Mas ele também é feito por pessoas. Famílias que atravessaram gerações vivendo da pecuária, preservando tradições, construindo comunidades e aprendendo que produzir alimento exige, antes de tudo, respeito ao ritmo da natureza. É essa história, muitas vezes pouco conhecida fora do bioma, que continua moldando uma das mais tradicionais pecuárias do Brasil.

Foi para ouvir essas famílias e compreender os desafios de quem vive no Pantanal que a Comitiva Pecuária Tropical pelo Clima cruzou estradas, fazendas e comunidades da região durante quatro dias. Promovida pelo Instituto Pecuária Tropical pelo Clima, a comitiva, parte do projeto Vozes da Pecuária, reuniu produtores rurais, pantaneiros, pesquisadores, profissionais do agronegócio e lideranças locais em uma grande jornada de escuta, cujo objetivo é catalisar as demandas em propostas da pecuária brasileira para entregar aos candidatos das próximas eleições e demais entidades envolvidas. 

Ao longo de quatro dias, a comitiva percorreu 500 quilômetros pelo Pantanal sul-mato-grossense. Colhendo todas essas ideias estavam os embaixadores territoriais e convidados do Vozes da Pecuária, capitaneados pelos pecuaristas Leonardo Leite Barros, Stefano Rettore e José Feliciano Lima Baptista. A primeira parada aconteceu no Sindicato Rural de Rio Negro, onde produtores rurais, comerciantes e técnicos participaram da primeira roda de conversa. 

O encontro marcou o início da jornada, colocando no centro das discussões quem conhece, na prática, os desafios e as oportunidades da produção pantaneira. Ao longo da conversa, temas como legislação ambiental, segurança jurídica e os desafios técnicos da pecuária regional foram debatidos de forma aberta entre os participantes. “Mais do que reunir demandas, o objetivo foi construir um espaço de diálogo seguro e capaz de transformar experiências em propostas”, afirma José Feliciano Lima Batista, embaixador da região Pantanal. Ele complementa que as primeiras contribuições colhidas em Rio Negro deram o tom da expedição: “ouvir antes de propor, compreender antes de construir soluções.” 

Participante local da roda de conversa e de uma família centenária de produtores rurais, René Miranda Alves, presidente do Sindicato Rural de São Gabriel do Oeste, ao contar sua história ressaltou que desde cedo aprendeu a conviver em harmonia com o meio ambiente, conciliando preservação, sustentabilidade do negócio, valorização dos colaboradores e sucessão familiar. Ele reconhece que é fundamental que a voz dos pantaneiros chegue aos grandes centros, “para que a sociedade compreenda que produzimos em sintonia com a natureza, preservamos nossas tradições, investimos na qualificação dos nossos colaboradores e buscamos oferecer melhores condições de trabalho." E, todas essas questões serão sintetizadas, como propostas, no documento que será construído.

Comitiva que cruzou o Pantanal para ouvir quem produz e preserva para captar suas demandas genuínas
Fotos: Fernanda Barros / Luiz Felipe Mendes

Segunda parada
De Rio Negro, a comitiva seguiu para a Pousada Baía das Pedras, na Nhecolândia, um dos destinos mais tradicionais do turismo pantaneiro. Foi ali que aconteceu um dos momentos mais marcantes da viagem. 

A roda de conversa reuniu produtores, vizinhos da pousada, profissionais ligados à atividade pecuária, amigos dos proprietários, como também representantes da sociedade. Eram turistas que estavam conhecendo o Pantanal e se juntaram ao grupo. “O encontro aproximou dois universos que raramente dialogam”, analisou Baptista, citando que participavam os “que escolheram o bioma como destino turístico e quem construiu sua vida naquele território”. 

Descendente de uma das famílias pioneiras da região, proprietária da pousada e produtora rural, Rita Maria Coelho Lima e Jurgielewicz explica que a pecuária sempre foi a principal atividade da propriedade e que a convivência entre o homem pantaneiro, o gado e a fauna silvestre faz parte da rotina de quem vive no bioma.

"O peão sabe que é guardião do Pantanal. É ele quem convive diariamente com esse ambiente e entende que produzir aqui é cuidar da natureza. O gado ocupa o mesmo espaço que antas, capivaras, cervos, jacarés e tantas outras espécies. Essa convivência acontece naturalmente e faz parte da nossa cultura”, destaca.  

Comitiva que cruzou o Pantanal para ouvir quem produz e preserva para captar suas demandas genuínas

Para os turistas, foi a oportunidade de conhecer os bastidores do Pantanal, algo além das paisagens e da biodiversidade. Pela primeira vez, os turistas puderam ouvir as histórias, os desafios e os sentimentos de famílias que vivem da pecuária há gerações. Para os produtores, foi uma oportunidade rara de contar como é feita a preservação por quem a vive todos os dias. “Foi uma troca genuína de experiências e aprendizados, um exemplo do que pode ser adotado como uma política pública educativa”, analisa Baptista. 

A voz da experiência às margens do Rio Negro
Comitiva que cruzou o Pantanal para ouvir quem produz e preserva para captar suas demandas genuínasA terceira parada levou a comitiva à Fazenda Baía Negra, em Aquidauana, onde o grupo foi recebido pelo produtor rural Pedro Manoel Corrêa da Costa, integrante de uma tradicional família pantaneira e presidente da Associação Brasileira de Produtores Orgânicos (ABPO).Ali aconteceu uma roda de conversa mais intimista e rica em conteúdo. Pedro apresentou os desafios específicos da região do Rio Negro, onde as características ambientais exigem conhecimento, adaptação e planejamento permanente.  

“A produção de carne orgânica esteve entre os principais assuntos debatidos, assim como as particularidades da pecuária em áreas alagáveis e os impactos das normas ambientais sobre quem produz”, conta o integrante do Vozes da Pecuária Leonardo Leite Barros. O encontro reforçou que o conhecimento construído pelas famílias pantaneiras ao longo das gerações deveria ser parte fundamental da construção de políticas públicas voltadas ao desenvolvimento sustentável do bioma. 

“Cada conversa confirma que a construção de uma pecuária mais sustentável começa pela escuta qualificada. O Pantanal reúne características ambientais, sociais e produtivas únicas, e isso exige políticas construídas a partir das evidências do território”, resume Leonardo Leite Barros sobre as conversas até o momento. Ele acredita que o conhecimento dos produtores não pode ser tratado apenas como experiência; ele deve ser reconhecido como um ativo estratégico para o desenvolvimento sustentável do bioma.

Mais de dois séculos de história olhando para o futuro
A quarta parada foi na Fazenda Taboco, em Aquidauana, administrada por Gabriel Ribeiro, representante da quinta geração da família, fundada em 1840. A fazenda também guarda parte da história do próprio Pantanal, mantendo ligação com episódios da Guerra do Paraguai que marcaram a região. 

Na Taboco a comitiva viu de mãos dadas a tradição e inovação. Além de investir em tecnologia e manejo sustentável, a fazenda mantém uma estrutura voltada ao bem-estar dos colaboradores e de suas famílias, incluindo uma escola que atende aproximadamente 60 crianças, com transporte escolar, permitindo que elas estudem sem precisar deixar a região. 

A conversa também destacou a sucessão familiar e a permanência das novas gerações. Além de, valorizar a cultura regional e garantir a continuidade do modo de vida no Pantanal, com a possibilidade de rever critérios relacionados ao trabalho de aprendizes, permitindo que os jovens possam ser preparados, de forma adequada e segura, para a realidade do território.  

Para Ribeiro, a formação acadêmica é importante aliada às lições que o Pantanal ensina. "Minha família acreditou na educação. Meu avô estudou na Universidade de Viçosa, meus pais e eu seguimos o mesmo caminho. Mas o Pantanal tem características únicas”, afirmou. Ele lembra que não existe receita pronta para se produzir no bioma, especialmente, pela realidade do ciclo de cheias e da seca, além das limitações de acesso, de energia, de mão de obra e de infraestrutura. “É um ambiente desafiador, mas extremamente gratificante”, finaliza.

Comitiva que cruzou o Pantanal para ouvir quem produz e preserva para captar suas demandas genuínas

A visita à Fazenda Taboco mostrou que o futuro da pecuária pantaneira passa justamente por esse equilíbrio: preservar um legado construído por gerações, investir em tecnologia, valorizar as pessoas que vivem no campo e compreender que cada solução precisa respeitar as características únicas do Pantanal.

Pantanal Tech
A jornada foi concluída com a chegada a Pantanal Tech, em Aquidauana, logo pela manhã. No evento, os principais aprendizados da expedição foram compartilhados em uma roda de conversa com todos os embaixadores e produtores do Estado: Stefano Rettore e José Feliciano Lima Baptista, Leonardo Leite Barros, a facilitadora da Pecuária Tropical pelo Clima, Renata Miranda, o pesquisador da Embrapa Pantanal Urbano Gomes Pinto de Abreu e Silvio Henrique Ribeiro Balduino, Assessor da Reitoria na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Eles ainda tiveram a oportunidade de fazer a primeira apresentação do movimento ao governador do Estado, Eduardo Riedel.

“O Pantanal Tech cumpriu um papel fundamental de conectar o movimento ao setor produtivo, a academia, a indústria local e o conhecimento dos povos originários”, afirmou o pecuarista pantaneiro Leonardo Barros.Para Barros, a consolidação de uma pecuária tropical sustentável depende diretamente desse esforço conjunto, focado em ouvir a comunidade pantaneira para compreender as particularidades do bioma e transformar ciência e tecnologia em respostas práticas para o clima. “O produtor rural entende que será o principal impactado pelas mudanças no clima, caso ele não proteja o ecossistema dentro de sua propriedade. Ele deve liderar as iniciativas de sustentabilidade, finaliza. 

Instituto Pecuária Tropical pelo Clima
A Pecuária Tropical pelo Clima se formaliza como uma organização criada para posicionar a pecuária brasileira como parte da solução climática, valorizando sua capacidade produtiva, organização setorial e práticas sustentáveis. Liderada por pecuaristas, a iniciativa representa a evolução de um movimento que integra, de forma inédita, diferentes regiões, biomas e realidades da pecuária no Brasil, colocando o produtor no centro da discussão sobre produção de alimentos, conservação e desenvolvimento econômico. Entre os seus projetos está o Vozes da Pecuária que tem por objetivo, neste ano, antes das eleições, entregar um documento com as propostas da pecuária catalisadas em 10 territórios.  

O movimento conta com o apoio da organização Terra Adorada, ex-Morada Comum, parte da Rede Global Our Common Home. A iniciativa conta também com a parceria da Unapec, União Nacional da Pecuária. Mais informações:www.pecuariapeloclima.org

Correio de Corumbá

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