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Ahmad Schabib Hany

A PARTIDA DE GLAUBER

Qua, 24 Junho de 2026 | Fonte: Ahmad Schabib Hany


Mais conhecido por Vanessinha ou Paulinha, Glauber Menelli se eternizou nesta terça-feira, 23 de junho, dia em que o povo corumbaense dá banho no Santo. Durante décadas circulou pelas ruas de Corumbá, mas pouquíssimas pessoas sabiam que era musicista e frequentara uma igreja evangélica, com batismo e formação cristã.
 
Vanessinha ou Paulinha, conhecida durante décadas pelas ruas de Corumbá, se eternizou nesta terça-feira, 23 de junho, em cuja noite o povo cumpre uma tradição que é Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil e sai sob o mais rigoroso frio ou mesmo até embaixo de chuva intensa para homenagear um de seus santos de devoção, São João Batista.
 
Glauber Menelli, que optara por ser travesti e vivera com intensidade o seu jeito de encarar a vida, era musicista e cantor gospel. Frequentara e se batizara numa igreja evangélica em sua juventude. E quando encontrava as pessoas que sabiam acolhê-lo sem preconceito e hipocrisia dava literalmente um show, como em algumas postagens das redes sociais é possível assistir-lhe tocando e cantando com desenvoltura e talento.
 
Personagem que entra para a história de Corumbá e ilustra com eloquência e originalidade a diversidade social, cultural e religiosa do coração do Pantanal e da América do Sul. Tem nome, sobrenome e história, apesar da hipocrisia e intolerância que teima transformar o mais antigo centro cosmopolita do interior do Brasil (e também do subcontinente) em bucólica aldeia medieval com direito a burgomestre "y otras cositas más"...
 
Eu o conheci há mais de duas décadas, quando namorava a Mãe de meus Filhos e sempre que nos encontrava tinha alguma novidade. A última vez que vi Vanessinha, há quase um mês, nas imediações do supermercado próximo ao Cemitério Santa Cruz, reclamara de fome e de problemas de saúde. Depois é que vim saber que morava nas proximidades do pontilhão da Rua Treze de Junho, onde foi encontrado sem vida no dia em que os corumbaenses vão à Prainha homenagear um dos mais populares santos de devoção.
 
A propósito, dar banho no Santo, quem já não participou ou assistiu?
 
"Eu não faço! É coisa do diabo!" É o que me diz meu querido Amigo há mais de 53 anos (com quem, ao lado dos igualmente queridos Juvenal e Benedito, cursamos o antigo segundo grau no Júlia Gonçalves Passarinho, criamos um jornal estudantil e aprendemos cidadania). É Professor (com letra maiúscula) aposentado, durante décadas um senhor fotógrafo (repórter fotográfico). Está aniversariando -- 76 anos bem vividos! -- no mesmo dia do santo, mas seu furor de evangélico convertido o tornou insociável, intolerante e irascível.
 
E o que isso tem a ver com Glauber ou Banho do Santo? Ele, que sempre foi sociável e nos ensinou cidadania ainda quando era apenas fotógrafo -- e como Professor se revelou um verdadeiro mestre, querido por todos os seus alunos ao longo de quase quatro décadas --, se tornou um ermitão, em nome de uma fé que o afastou até de sua própria Família. Nem vou dizer qual é a igreja que desde que se aposentou passou a frequentar e, em certa ocasião, lhe causou uma depressão e até síndrome do pânico.
 
Pois Glauber, anjo torto que nos presenteou com sua efêmera existência a personagem Vanessinha / Paulinha e a lendária participação em certame nacional de travestis no início dos anos 2000, tinha uma vida cada vez mais acuada. Sem fazer juízo de valores, sua eternização tem correlação direta com a intolerância exacerbada ao longo das últimas décadas, com o funesto projeto da teologia da dominação, que substituiu estratégica e sordidamente o da teologia da prosperidade, de triste memória.
 
Qualquer morador corumbaense percebia no semblante de Glauber um vazio, ainda que sempre insistisse em aparentar estar bem-humorado, anedotas bem pensadas. Excluído e condenado pelos olhares moralistas dos arautos de uma doutrina nascida há seis décadas e disseminada nas duas últimas, o jovem que desenvolvera seu talento artístico dentro de uma comunidade evangélica livre das ilações fundamentalistas propaladas nestes tempos nada generosos viveu seus derradeiros dias como quem não tivesse alma, não tivesse vida e, sobretudo, não tivesse direito ao livre arbítrio.
 
Glauber não foi o primeiro. Nem será o último nesta sociedade de fachada, de aparências. Em menor ou maior grau, nós todos, toda a nossa coletividade é cúmplice por ação ou omissão nesse processo de desumanização expressa de todos os nossos contemporâneos por simplesmente quererem ser o que querem ser -- enfim, o que são e o direito de serem felizes.
 
Afinal, que direito temos -- quem somos nós? -- para condenar à exclusão, à morte em vida, seres humanos talentosos, sensíveis e dignos de terem uma vida digna, livre de falso moralismo? Glauber não só nos presenteou com Vanessinha / Paulinha, generosamente, ao longo de décadas; tentou -- mas lamentavelmente não foi feliz, porque não conseguiu -- nos chamar à razão humana para que, mais que dinheiro, sabonete ou condicionador capilar, lhe dêssemos o lugar que um artista de talento merece, e, sobretudo todo ser humano por direito tem: dignidade humana, respeito, oportunidade.
 
Mais um semelhante nosso que se nos escapa à consciência individual e coletiva. Mais um personagem de nossa plêiade de mensageiros que se vão sem terem conseguido nos fazer evoluir, mudar nossas atitudes, ipso facto. Porque tratar os diferentes de nós com respeito e irmãmente não é apenas um predicado religioso, cristão, mas, sobretudo, dever cidadão. Aliás, onde estava o poder público que não enxergou seu papel nesse contexto que levou décadas a ser enunciado cotidianamente? Como diz a sabedoria popular, de bem intencionados o inferno está cheio...
 
Há décadas os sucessivos representantes do povo corumbaense se declaram sinceramente preocupados com o desenvolvimento da região. Esquecem-se, no entanto, que a base do desenvolvimento está nas condições plenas para o povo se desenvolver, respeitadas as suas peculiaridades, aptidões. Isso só é possível por meio de oportunidades, por meio da educação de qualidade, por meio da sonhada Universidade Federal do Pantanal, com cursos de artes e esportes. Corumbá já provou e comprovou ser celeiro de talentos em todas as áreas artísticas e modalidades desportivas, bem como científicas.
 
Até porque, senhores engravatados, não somos tatu para celebrar buracos na terra e nem toupeira para viver sob a terra sem enxergar que enriquecimento de alguns, que sequer moram aqui, seja sinônimo de progresso desta cidade que já foi, é e quer permanecer cosmopolita, ainda que a capital do estado queira continuar provinciana. Corumbá não é Cubatão, jamais será Buracom, anagrama de seu belo nome, etimologicamente campo de aroeiras, e nunca local de pedregulhos, para os que querem justificar a cobiça, avidez mórbida, dos fazedores de buraco, como em Itabira, a terra natal de Carlos Drummond de Andrade. Sem Tatuzinho, a pinga; sem tatuzão, o/a patrola...
 
Até sempre, Glauber, nosso anjo torto! E obrigado pelas inúmeras tentativas generosas de tocar nossa sensibilidade, mas desperdiçadas por décadas a fio, de dia, de noite, no frio, ao relento, no barraco e fora dele, e nos recônditos da desumanidade de todos nós, seus indignos contemporâneos! Que dó...
Correio de Corumbá

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