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Ahmad Schabib Hany

AOS 97 ANOS DE UMA EXISTÊNCIA FECUNDA

Sáb, 11 Março de 2023 | Fonte: Ahmad Schabib Hany


Mãe de nove filho(a)s, Dona Yoya, discreta e reservada, fez de sua jornada verdadeiro instrumento de cidadania, ao lado de seu Companheiro de Vida sem se ofuscar nem competir: praticou o protagonismo cidadão que forjou o caráter de toda a sua Família. Neste 11 de março estaria completando 97 anos, razão pela qual tomo a liberdade de compartilhar o texto em sua homenagem de cinco anos atrás.

 

OS 92 ANOS DA PEREGRINA DE DOCE OLHAR

WADIA AL HANY DE SCHABIB (11/03/1926 - 15/06/2009)

Caso estivesse conosco, o presente que a Vida nos deu como Peregrina de doce olhar -- que nós chamávamos de Mãe -- estaria, neste domingo, 11 de março, fazendo 92 anos. Eternizada há menos de nove anos, sua presença não é apenas saudade, mas fonte de sensatez e candura a nortear nossos caminhos.

Nascida Wadia Al Hany Ascimani, a formosa donzela que encantaria duas décadas depois o meu saudoso Pai, Mahoma Hossen Schabib, era a segunda de onze filhos que a jovem senhora Guadalupe Ascimani de Hany procriou com seu companheiro, o dentista Youssef Al Hany, em San Joaquín de las Aguas Dulces, departamento do Beni, Bolívia. Nossa Avó Guadalupe, de Pai libanês maronita e Mãe boliviana, casara-se aos 16 anos, como toda donzela de seu tempo. Nosso Avô Youssef, aliás José, libanês druso que estudara na Alemanha até ser atraído pelos encantos e mistérios amazônicos, ainda no pós-guerra de 1917, trocou o Oriente Médio pelo Oriente boliviano, tendo-se dedicado ao povo como se tivesse nascido naquelas terras de promissão e carência.

Desde criança nossa Mãe recebera a incumbência de auxiliar nossa Avó a cuidar dos irmãozinhos, ainda que fossem reduzidos os riscos da Amazônia boliviana. Sendo a mais velha das meninas, cabia a ela o papel de “segunda mãe”, como era apresentada aos amigos da Família. Na década de 1920, período entre-guerras, o Beni, como toda a Amazônia, se transformara em centro provedor de castanha, seringa, carne e minerais preciosos para a Bolívia e o mundo. Por conta disso, levas de imigrantes europeus e asiáticos procuravam o mítico Eldorado (ou El Dorado, em espanhol), mas a maioria encontrava a morte causada pela malária, pelas feras da floresta ou pelos rios indômitos -- muitos aventuravam, mas poucos eram os vitoriosos e podiam contar a sua história para os descendentes.

Não demorou muito para que o imigrante libanês Youssef se transformasse no lendário “Doctor José Al Hany”, dentista que por falta de médicos acabara cuidando da saúde e salvando vidas nos vilarejos situados à beira dos temidos rios amazônicos. Quando ele faleceu, não faltou um prefeito que o homenageasse com o nome de uma rua em Trinidad, capital do Beni, mas que, durante a ditadura sanguinária de Hugo Banzer Suárez, algum interventor rancoroso retirou seu nome para pôr o de um ancestral seu. Se isso fizera falta aos seus descendentes? Absolutamente, até porque a quase totalidade dos Hany se espalhara pela Bolívia e toda a América Latina, fazendo jus à sua origem peregrina.

Mas para a Família Hany retirar homenagem póstuma beirava anedota diante das histórias canhestras contadas pelo Tío Simón Hany, Irmão mais velho e que chegara antes de nosso Avô José à Amazônia, pelo Brasil. No início do século XX, então recém-chegado à América, o Tío Simón foi trabalhar na extração de castanha e seringa e produção de carne na gleba de um grande fazendeiro português, descendente dos senhores de escravo da época da colonização. Cansado dos abusos e represálias do arrogante patrão, o então jovem imigrante decidira pedir as contas e mudar-se para o outro lado da fronteira, a Bolívia. Aconselhado por um amigo africano, havia mais tempo na fazenda, a não fazer isso para não perder a vida -- antes fugisse sem deixar vestígios, mesmo deixando seus haveres --, mas ele relutara por entender que eram seus direitos e que ninguém o enganaria. Resultado: depois de pegar todo o salário devido, o Tío Simón foi alvejado por jagunços do patrão e, enquanto parecia agonizar, era roubado todo o seu dinheiro. Ainda com vida, apesar de todo ferido pelas balas que o atingiram, foi resgatado pelo amigo africano e levado para um vilarejo pouco distante dali, para ser salvo por nativos. Por ironia da vida, dias depois de o Tío Simón ter sido alvejado, o patrão arrogante e ladrão foi morto por um raio que derrubou uma árvore frondosa sobre ele.

Naquela época, as donzelas eram instruídas em casa. Quando jovem, Wadia (Yoya, em casa) e sua Irmã Magiba queriam seguir os estudos, mas no interior do Beni isso era impossível. Por isso, tão logo se emancipou com o casamento -- três anos depois ela, meu Pai e meus dois Irmãos mais velhos foram morar na cidade universitária da Bolívia, Cochabamba, pois para eles o estudo era instrumento de emancipação de todo e qualquer cidadão --, fez um curso de técnica de enfermagem, o que lhe foi de muita valia até para cuidar dos nove filhos e dos filhos de muitas parentes e amigas.

Enquanto meu Pai fazia uma incursão pelas atividades jornalísticas e intelectuais, numa fase em que a Família tinha alcançado estabilidade financeira, sendo Dona Yoya a administradora dos negócios, uma crise sem precedentes se abateu sobre a Bolívia entre os anos 1953 e 1962, o que os levou a decidir emigrar com todos os filhos para o Líbano. Até porque meu Pai, minha Mãe e os filhos, por tabela, tinham automaticamente cidadania libanesa. Esse período, de quatro anos do Líbano, mostrou uma Wadia ainda mais extraordinária e companheira, o que permitiu que meu Pai retornasse às atividades jornalísticas, vinculando-se à imprensa egípcia, escrevendo em árabe e espanhol, pois os mesmos meios que antes publicavam seus artigos na Bolívia, Chile e Brasil tinham interesse de conhecer como as transformações decorrentes do nasserismo estavam se processando por todo o chamado Mundo Árabe.

A iminência da guerra civil no Líbano fez os meus Pais retornarem para a América do Sul, mas desta vez para o Brasil -- precisamente Corumbá, na divisa dos dois países, o que permitia que os filhos mais velhos pudessem cursar os últimos anos do ensino médio e seguir para a Universidade na Bolívia sem perda de tempo --, o que implicou numa fase de adaptação, sobretudo por causa do calor e das características de cidade de interior, ainda que com um cosmopolitismo ímpar. Com a mesma dignidade com que conduzira os negócios da Família na Bolívia e no Líbano, Dona Yoya se armou de valor e arregaçou as mangas para estar à frente de, inicialmente, uma pequena sorveteria e, depois, uma modesta pousada (na época soía ser chamada de “hospedaria”), com a qual custeou os estudos de todos os filhos, além de ter contribuído, ainda que modesta e anonimamente, para o desenvolvimento do turismo ecológico desta porção rica e singular do planeta por exatos 30 anos ininterruptos, além de ter inserido na agenda local alguns temas por meio de artigos publicados no emblemático decano da imprensa corumbaense, o combativo Diário de Corumbá.

Depois do encerramento das atividades comerciais, Dona Yoya aproveitou de desfrutar melhor da companhia do Seu Schabib, e fizeram memoráveis viagens para rever familiares no Brasil, na Bolívia, no Líbano e no México. Eis que o destino quis que o Companheiro de toda a Vida se eternizasse antes de que eles pudessem ter comemorado suas bodas de ouro, período de recolhimento e viagens curtas, na tentativa de esquecer a sofrida solidão. Mas não se deu por vencida, e com a mesma garra com que enfrentou adversidades em diferentes fases da Vida, viveu por mais treze anos de rica convivência com filhas, filhos, netas e netos, irmãs e irmãos.

Silenciou-se numa chuvosa manhã de 15 de junho de 2009, num leito de clínica em Campo Grande, depois de ter resistido estoicamente a um câncer voraz, oportunidade que nos permitiu conhecer melhor a Peregrina de doce olhar que a Vida nos presenteou como Mãe.

Correio de Corumbá

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