Ahmad Schabib Hany
PADRE OSVALDO SCOTTI, PRESENTE!
Ter, 14 Fevereiro de 2023 | Fonte: Ahmad Schabib Hany
Ex-diretor do Santa Teresa e da Cidade Dom Bosco e ex-pró-reitor de Extensão da UCDB, Padre Osvaldo Scotti é da geração dos desassossegados que fizeram da Igreja Católica uma usina de transformação e resistência. Ao lado do Padre Pasquale Forin, foi um dos que ouviram Dona Josefina Ferreira, Matriarca dos Guató, e acionaram o CIMI, que conseguiu provar a (re)existência do Povo Guató, canoeiros do Pantanal, ao longo do Rio Paraguai.
O dia 9 de fevereiro passa a ser um dia de despedida, e, apesar da incontida tristeza e da saudade profunda, a irreverente alegria do Padre Osvaldo Scotti, o eternamente jovem Salesiano incansável e, no bom sentido, provocador — um verdadeiro desassossegado.
Padre Osvaldo, argentino de alma latino-americana, era tão brasileiro, tão nato, quanto os Guató que ele, ao lado do Padre Pasquale Forin, ajudou a fazê-los retornar à Ilha Ínsua, de onde foram expulsos durante o regime de 1964. Foi ele, que trabalhara em missões a comunidades indígenas em Mato Grosso, que acionou antropólogos ligados ao Conselho Indigenista Missionário (CIMI), entre eles a Professora Yara Blum Penteado, que na época trabalhava na antiga FUCMT (hoje UCDB). Graças aos dois saudosos salesianos e ao CIMI, os Guató deixaram de ser considerados ‘extintos’ (sic) pela FUNAI (Fundação Nacional dos Povos Indígenas, como passou a ser denominada em 2023) e passaram a ter o processo de resgate de sua rica cultura milenar.
Além de diretor do tradicional Colégio Salesiano de Santa Teresa, na década de 1970, e da Cidade Dom Bosco na década de 2000, Padre Osvaldo foi pró-reitor de Extensão da Universidade Católica Dom Bosco (UCDB), em Campo Grande, na década de 1990. Veio a Corumbá pela segunda vez em substituição do Padre Carlos Estremera, para colaborar na gestão das obras sociais fundadas pelo Padre Ernesto Saksida, entre 2003 e 2011, sendo substituído pelo Padre Amércio Rezende, que na década de 1990 foi o diretor do Colégio Salesiano de Santa Teresa.
Ao deixar Corumbá, foi missionário nas comunidades indígenas de Meruri e Sangradouro, em Mato Grosso, por dois anos. A partir de 2013 dedicou-se ao trabalho pedagógico e pastoral em diversas paróquias de Cuiabá, e nos últimos anos era vice-diretor e pároco em Coxipó, na Paróquia da Guia, seu trabalho derradeiro, enquanto enfrentava o câncer que o fez interromper sua profícua jornada, sobretudo, entre os jovens. Há poucos dias, deixou uma mensagem em áudio a todos os Amigos, em que manifestava sua confiança e fé na Vida, quando revelara o desafio derradeiro que vinha enfrentando até a manhã do fatídico 9 de fevereiro.
Conheci o Padre Osvaldo no tempo em que os alunos e alunas do Colégio Santa Teresa o chamavam carinhosamente de ‘Padre Pastinha’, por causa do penteado que então usava, nos idos de 1970. A alegria e a irreverência ecoavam nos amplos corredores da à época Escola Estadual Santa Teresa, pois a Secretaria Estadual de Mato Grosso havia feito um convênio com a Missão Salesiana, permitindo que o mais antigo e tradicional colégio ‘de rapazes’ fosse acessível a todas e todos os jovens. Foi uma verdadeira explosão de novos talentos, uma geração de vanguarda que entrou para a História.
Amigas e Amigos querida(o)s, como Mara Leslie do Amaral e Arturo Castedo Ardaya, seus aluno(a)s inseparáveis, têm um contagiante carinho por ele, que até parece membro de suas respectivas Famílias. Foi, aliás, nessa época que celebrou o casamento de Amigos igualmente queridos, como o Professor João Bosco e a Professora Jussara e, senão me engano, o saudoso Doutor Lamartine e a Professora Carminha, casais com os quais Padre Osvaldo tinha uma relação literalmente familiar, praticamente fraternal.
Como eu não estudei no Santa Teresa (sou dos alunos do saudoso Professor Octaviano Gonçalves da Silveira Junior no antigo Centro Educacional Julia Gonçalves Passarinho, o atual JGP), passei a conviver com ele em sua segunda permanência em Corumbá, entre 2003 e 2011, quando diretor da Cidade Dom Bosco. Além da Amizade — difícil era não ser amigo do querido Padre Osvaldo —, tenho profunda gratidão por ele, pois foi de uma generosidade única ao dar oportunidade à minha então futura Companheira, Solange, que retornava na época de Cuiabá.
Em 2005, Padre Osvaldo, depois de relutância inicial, aceitou o desafio de representar a Cidade Dom Bosco no processo de eleição de membros do Conselho Municipal de Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA) de Corumbá, e foi o mais votado, tendo sido eleito por unanimidade presidente daquele lócus, embora num primeiro momento não quisesse aceitar esse encargo — mas como não era de fugir dos reptos, acabou aceitando e foi um dos melhores presidentes que o CMDCA teve em suas três décadas de existência. Em seu mandato foram realizadas importantes adequações regimentais e processuais, de acordo com as legislações estadual e federal, que até a gestão municipal anterior não eram implementadas: foi um período em que as conquistas cidadãs ocorreram sem conflitos, até porque os gestores eram pessoas próximas e ótimos interlocutores com a sociedade, como o Professor João Bosco Silva e Souza, o saudoso Doutor Lamartine Figueiredo da Costa e o saudoso Prefeito Ruiter Cunha de Oliveira.
Em meados de abril de 2005, dois dias depois da realização do conclave que elegeu o Cardeal Joseph Ratzinger, surpreendeu-me, em uma das visitas que me fizera em casa, ao revelar a existência de duas correntes bem definidas — a conservadora, que elegera o Papa Bento XVI, e a progressista, que tinha como papabile o Cardeal Claudio Hummes, Arcebispo de São Paulo, e que no conclave de 2013 apoiou a candidatura do Cardeal Jorge Mario Bergoglio, Arcebispo de Buenos Aires, e que lhe sugerira a adoção do nome Francisco, como homenagem a São Francisco de Assis (os dados de 2013 são meus, não do querido Padre Osvaldo, que não mais o vi depois de sua remoção em 2011). Causara-nos surpresa a nitidez de sua compreensão do processo sucessório papal, com uma objetividade singular.
Entre o gigante legado do Padre Osvaldo, destacamos a inesgotável confiança, efetiva alegria, com que encarava todos os desafios e os transformava em conquistas coletivas. Avesso ao individualismo, da geração dos católicos desassossegados que transformaram a sisuda congregação salesiana de décadas anteriores em verdadeiro celeiro de inquietude libertadora e reveladora de talentos, ele é referência da irreverência acolhedora. Tanto quanto Padre Pasquale Forin e Dom José Alves da Costa, também nascidos em meados do mês de abril, o Padre Osvaldo fez do sacerdócio ofício de protagonismo coletivo. Seja ao lado do Padre Ernesto ou do Padre Pasquale, ele soube como ninguém potencializar as obras sociais sem ofuscar a identidade de seus Irmãos de congregação.
Quando sua longa trajetória religiosa, de 61 anos, é interrompida em meio ao pranto de tantos e tantas Amigas e Amigos de fé, de caminhada e de esperança, temos certeza de que o querido Padre Osvaldo venceu e convenceu a tudo que atravessou o seu caminho, inclusive a doença que lhe causou tantos dissabores. Sua eternização ocorre no momento em que os poderosos inimigos dos povos originários e dos excluídos são desmascarados de modo cabal, sereno e sob a égide da legalidade. Sem dúvida, Padre Osvaldo parte para a eternidade em paz, com a consciência de quem esteve do lado da fé, da justiça e da concórdia, que em palavras laicas correspondem ao lado da História.
Obrigado, Padre Osvaldo, por ter existido e ter aceitado caminhar ao lado dos excluídos, dos sem voz e sem vez! Até sempre, querido Amigo de fé, Irmão, Camarada!
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