Política
Prisão de Cerimedo também atinge governo boliviano de Rodrigo Paz em meio a denúncias de corrupção
Detenção do consultor argentino após ataque contra Nadia Beller amplia pressão sobre o governo, já confrontado por acusações envolvendo ouro e combustíveis e pela retomada das mobilizações sociais.
Qua, 19 Agosto de 2026 | Fonte: Brasil 247
A prisão do consultor político argentino Fernando Cerimedo, investigado na Bolívia por tentativa de feminicídio contra sua ex-companheira, a advogada e ativista Nadia Beller, abriu uma nova frente de desgaste para o governo do presidente Rodrigo Paz Pereira. Cerimedo teve atuação nos bastidores da campanha eleitoral de Paz e é apontado como uma figura influente no entorno do governo boliviano, circunstância que aumenta a repercussão política de sua detenção.
O episódio ocorre em um momento particularmente delicado para Paz, que enfrenta, em seus primeiros nove meses de governo, denúncias de irregularidades relacionadas à compra e distribuição de combustíveis, exportação de ouro e obras públicas, além de crescente pressão social decorrente da crise econômica. As acusações ainda dependem de investigação e comprovação pelas autoridades competentes.
Cerimedo, conhecido também por suas conexões com a extrema direita latino-americana, tornou-se figura pública no Brasil após disseminar alegações falsas contra as urnas eletrônicas depois da derrota de Jair Bolsonaro nas eleições de 2022. Na Argentina, teve papel de destaque no ecossistema digital que impulsionou Javier Milei.
Caso Cerimedo chega ao entorno de Rodrigo Paz
A dimensão política da prisão decorre sobretudo da proximidade atribuída a Cerimedo com o governo boliviano.
O consultor argentino participou dos bastidores da campanha que levou Rodrigo Paz ao poder e é descrito como uma personalidade de influência no núcleo político presidencial.
Há ainda denúncias de que Cerimedo e outros assessores argentinos vinculados politicamente ao campo de Javier Milei e Donald Trump exerceriam influência relevante sobre decisões do governo boliviano.
Essas alegações ampliaram a pressão sobre Paz depois da prisão do consultor.
Segundo as informações apresentadas sobre o caso, mesmo depois da detenção, Cerimedo não teria sido formalmente afastado da posição que ocupa, circunstância que alimentou novas críticas ao governo.
Ataque contra Nadia Beller desencadeou prisão
Cerimedo foi detido depois do ataque a tiros contra Nadia Beller em Santa Cruz de la Sierra.
A advogada foi atingida por três disparos na entrada de um hotel, após homens vestidos como entregadores se aproximarem dela. Beller afirma ter sobrevivido porque fingiu estar morta.
A vítima responsabilizou diretamente Cerimedo pelo atentado e afirmou que ele teria enviado os responsáveis pelo ataque.
“Ele [Cerimedo] me mandou os sicários, ele sabe quem são”, declarou Beller.
A afirmação constitui uma acusação da vítima e está sendo investigada pelas autoridades bolivianas. Cerimedo deve ter assegurado o direito de defesa, e sua eventual responsabilidade criminal dependerá da apuração e das decisões judiciais.
O caso adquiriu uma dimensão política adicional porque Beller afirma possuir informações sobre supostos esquemas de corrupção envolvendo pessoas ligadas ao poder boliviano.
Beller denuncia caso das “maletas de ouro”
Entre as acusações apresentadas por Beller está um episódio envolvendo 182,5 quilos de ouro, que passou a ser conhecido como o caso das “maletas de ouro”.
Segundo a denunciante, o episódio envolveria funcionários de alto escalão da Aduana boliviana e poderia alcançar pessoas relacionadas à família presidencial.
Beller também cita a primeira-dama, Maria Elena Urquidi, em suas acusações.
As afirmações são denúncias feitas pela advogada e não devem ser tratadas como responsabilidades comprovadas. Caberá às instituições bolivianas determinar a existência de irregularidades e a eventual participação das pessoas mencionadas.
A gravidade política da denúncia decorre da tentativa de estabelecer uma conexão entre supostos negócios envolvendo ouro e pessoas próximas ao núcleo presidencial.
Beller sustenta ainda que informações que possuía sobre essas operações estariam relacionadas às ameaças sofridas antes do atentado.
Combustíveis entram no centro das acusações
Outra frente aberta pelas denúncias envolve o setor de combustíveis, um tema particularmente sensível diante da crise econômica enfrentada pela Bolívia.
Beller afirma ter conhecimento de supostos pagamentos de propinas relacionados à distribuição de cotas de combustível.
Segundo sua versão, valores milionários teriam sido movimentados para favorecer determinados agentes econômicos, incluindo grandes produtores e operadores do setor.
As acusações ganham peso político porque a escassez de combustíveis tem sido um dos principais fatores de insatisfação social no país.
O acesso ao diesel é especialmente importante para produtores rurais e para setores responsáveis pelo transporte e abastecimento. Qualquer suspeita de favorecimento ou corrupção na distribuição de combustível tende, portanto, a repercutir diretamente sobre uma população já afetada pela crise.
Protestos pressionam governo Paz
O escândalo surge quando o governo enfrenta também a perspectiva de uma nova onda de mobilizações sociais.
A Central Obrera Boliviana protagonizou cerca de 50 dias de protestos relacionados à deterioração das condições econômicas, ao aumento do custo de vida e à escassez de combustíveis.
As mobilizações foram temporariamente contidas durante um estado de exceção de 90 dias.
Com o encerramento desse período, sindicatos e movimentos camponeses voltam a pressionar o governo.
Entre as principais reivindicações está a retomada do subsídio ao diesel, considerado fundamental por setores produtivos e organizações sociais para impedir uma nova escalada dos custos.
A questão dos combustíveis também está ligada à disponibilidade de dólares na economia boliviana, outro dos pontos de tensão enfrentados pelo governo.
Cerimedo conecta Bolívia, Milei e bolsonarismo
A presença de Fernando Cerimedo no entorno político de Rodrigo Paz acrescenta uma dimensão internacional à crise.
O argentino construiu sua trajetória como estrategista de comunicação política ligado a movimentos de direita e extrema direita na América Latina.
Na Argentina, esteve associado à ascensão de Javier Milei e à construção de estruturas digitais utilizadas pelo campo libertário. Foi também fundador do La Derecha Diario, veículo que se tornou parte importante desse ecossistema político.
No Brasil, Cerimedo estabeleceu relações com a família Bolsonaro e ganhou projeção depois das eleições de 2022.
Após a vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ele realizou uma transmissão na qual difundiu alegações falsas sobre supostas irregularidades nas urnas eletrônicas brasileiras.
As acusações não demonstraram fraude e foram desmentidas por especialistas e pelas verificações realizadas sobre o sistema eleitoral.
Mesmo assim, tiveram ampla circulação entre grupos bolsonaristas que contestavam o resultado da eleição e defendiam medidas para impedir a posse de Lula.
Prisão amplia crise política em La Paz
Para Rodrigo Paz, a prisão de um personagem que participou de sua campanha e é apontado como integrante influente de seu entorno cria um problema que ultrapassa a investigação criminal contra Cerimedo.
A controvérsia se soma às acusações envolvendo ouro, combustíveis e contratos públicos, além da insatisfação social provocada pela situação econômica.
As denúncias feitas por Nadia Beller introduzem uma questão adicional, ao relacionar o atentado que sofreu às informações que afirma possuir sobre supostos negócios ilícitos e corrupção.
Até o momento, essas alegações precisam ser tratadas como acusações sujeitas a investigação, e não como fatos comprovados.
A combinação entre a prisão de Cerimedo, as denúncias de Beller e a perspectiva de retomada das mobilizações sindicais e camponesas aumenta a pressão política sobre o governo de Rodrigo Paz justamente quando a administração tenta administrar simultaneamente escassez de combustíveis, dificuldades econômicas e uma crise de confiança nas instituições.
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